Pesquisadores usam cinzas do Museu Nacional para reconstruir acervo destruído em incêndio

Fonte: BBC

Réplica do crânio do crocodilo brasileiro Mariliasuchus amarali feita com cinzas do Museu Nacional
Réplica do crânio do crocodilo brasileiro ‘Mariliasuchus amarali’ feita com cinzas do Museu Nacional | Foto: Jorge Lopes

A ciência vive de experiências. Como define o método de tentativa e erro, é preciso que algo dê errado antes de acertar. E foi numa dessas experiências, ou melhor numa crise daquelas que não saem da memória, que cientistas brasileiros viram uma oportunidade que poderá ajudar a reescrever parte da história perdida do país.

A crise em questão foi o incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, ocorrido em setembro de 2018, que transformou em pó e cinzas 200 anos de história e um dos mais ricos acervos de antropologia e história natural da América Latina, com mais de 20 milhões de itens.

Mas do pó e das cinzas dessa tragédia, que repercutiu em todo o mundo, surgiu um projeto experimental que pode contribuir na recuperação de parte do acervo tomografada antes do incêndio. Os pesquisadores estão adicionando “restos” do Museu Nacional a resinas de impressoras 3D para recriar ou restaurar peças.

Desde o fim de 2018, foram “fabricados” com carvão e restos de madeira resgatados dos destroços do museu um fóssil do crocodilo pré-histórico Mariliasuchus amarali, que viveu no Brasil há quase 70 milhões de anos e um shabit, tipo de estatueta funerária egípcia que era colocada junto a corpos mumificados do Egito Antigo.

Mas o maior desafio do grupo deve vir em breve: a impressão da réplica do crânio de Luzia, fóssil humano mais antigo do Brasil, com detritos que antes tinham como destino o lixo.

Réplica de shabit egípcio impressa com as cinzas do Museu Nacional
Réplica de ‘shabit’ egípcio feita a partir de técnica que envolve tomografias e impressão 3D | Foto : Jorge Lopes

A ideia partiu de pesquisadores do próprio Museu Nacional, gerido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com apoio de equipes da PUC-Rio e do Instituto Nacional de Tecnologia (INT). Eles elaboram testes para adicionar materiais diferentes a resinas utilizadas em impressoras 3D, equipamentos usados na fabricação de peças distintas a partir de softwares próprios.

Do pó retornarás

Com autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), responsável pela recuperação do prédio centenário que abrigava o museu, foram recolhidos itens que seriam descartados para análise de equipes do Laboratório de Processamento de Imagem Digital (Lapid), sob a coordenação do pesquisador Sergio Alex Azevedo.

A ideia só foi viável graças a estudos prévios conduzidos pelo Lapid, ligado ao Museu, feitos ao longo de 15 anos em parceria com o pesquisador Jorge Lopes, da PUC-Rio e do INT. Juntos, eles tomografaram centenas de artefatos da coleção principal do museu no intuito de preservar a memória caso algo viesse a provocar a perda do acervo – o que se concretizou no ano passado.

Foram mais de 300 tomografias, de fósseis de dinossauros a múmias egípcias. Com o scanner a laser, foi possível observar o interior de sarcófagos e o que continham urnas funerárias da cultura marajoara, sociedade indígena que viveu na Amazônia há mais de mil anos.

“A gente fez o primeiro teste para mostrar que era possível fazer. Várias pessoas ficaram interessadas e encantadas pelo simbolismo. É uma tecnologia que surgiu do lixo e que pode dar um peso maior na recuperação do acervo do Museu Nacional, uma possibilidade de incorporação de materiais” afirma Azevedo.

Grandes e antigas portas do Museu Nacional abertas, através das quais pode-se ver cinzas e escombrosGetty Images
Incêndio no Museu Nacional aconteceu em setembro de 2018

Antes de aplicar as cinzas na produção de peças, foram adicionados carvão e madeira queimada comum à resina para impressora 3D. Jorge Lopes explica que após os primeiros testes, ficou evidente que as peças impressas não se esfarelavam, o que garantiria o uso dessas substâncias pouco usuais.

“Eu via a luta dos estudantes trabalhando nos escombros para salvar alguma coisa e pensava se aquele pó todo e aquela cinza toda serviriam para algo. Isso tem um apelo muito interessante, gera uma conectividade”, explica. Segundo Lopes, os testes estão sendo feitos com recursos próprios.

De acordo do Azevedo, a técnica abre possibilidades para a recuperação de fósseis, por exemplo.

“No caso de dinossauros, poderia colocar na resina materiais da rocha onde aquela peça foi encontrada. Pode-se colocar mais materiais que sejam compatíveis com a construção, criando uma cópia 3D mais fiel ao original”, explica.

Outros testes deverão ser realizados pela equipe, que pretende reconstruir cerâmicas marajoaras com lama da região de Marajó, e recuperar outros artefatos egípcios.

Museu conseguiu R$ 85 milhões para recuperação

Em janeiro, a BBC News Brasil mostrou que Museu Nacional deverá ter em caixa R$ 85,4 milhões para obras emergenciais, recuperação do prédio histórico e reconstrução do acervo. O diretor da instituição, Alexander Kellner, explicou que boa parte do dinheiro demoraria a chegar devido à burocracia, mas que o montante já tem destinação prevista e não pode ser usado para outras finalidades.

O orçamento anual do museu, repassado pela UFRJ – mantida com recursos do governo federal -, havia caído drasticamente nos últimos cinco anos: de R$ 531 mil, em 2013, para R$ 54 mil, em 2018.

O diretor Kellner explicou que a verba prevista era excepcional para começar a reconstruir a instituição, mas ressaltou que “não se faz uma coleção de dois séculos em duas décadas”. Para ele, mais importante no momento é discutir como viabilizar a manutenção do local após sua recuperação.

“Antes do incêndio, o Museu Nacional precisaria de US$ 3,8 milhões (R$ 14,7 milhões) para manutenção básica de sua estrutura. No entanto, só recebia R$ 500 mil. Eu estimo que, numa janela de até seis anos, vamos precisar de US$ 10 milhões (R$ 38,8 milhões) anuais para mantê-lo em condições razoáveis.”

Para 2019, Kellner afirma que serão três as prioridades. A primeira delas é a recuperação do palácio, em seguida o resgate e recomposição do acervo, e, por último, o fomento à pesquisa na instituição.

No fim de março, um laudo divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo apontou que a Polícia Federal concluiu que um curto circuito em um aparelho de ar-condicionado do auditório, localizado no primeiro andar do prédio, causou o incêndio.

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