Indústria da moda polui mais que navios e aviões

Fonte: VALOR

A indústria da moda responde por algo entre 8% e 10% das emissões globais de gases-estufa, mais que a aviação e o transporte marítimo juntos. É o segundo setor da economia que mais consome água e produz cerca de 20% das águas residuais do mundo. Libera 500 mil toneladas de microfibras sintéticas nos oceanos todos os anos. As pessoas consomem, em média, 60% mais peças do que há 15 anos e cada item é mantido no armário por metade do tempo de antes. A complexa e diversa cadeia da moda no mundo é, no geral, insustentável.

A indústria da moda, segundo dados da ONU Meio Ambiente, está avaliada em cerca de US$ 2,4 trilhões e emprega mais de 75 milhões de pessoas internacionalmente. O dado impressionante é que se perde cerca de US$ 500 bilhões ao ano com o descarte de roupas que vão direto para aterros e lixões e sequer são recicladas.

Para reverter esta tendência, tornar o setor ambientalmente adequado e com melhores práticas sociais, a ONU lançou a “Aliança das Nações Unidas para a Moda Sustentável”. A ideia é colocar holofotes nesta indústria, identificar desafios e gargalos e estudar soluções e políticas.

O embrião da iniciativa é de dezembro, quando se criou a “One UN Voice”, um alerta para o problema aos funcionários das diversas agências da ONU. É o primeiro passo para impulsionar esta agenda de modo global e, em algum momento, desenhar soluções multilaterais.

“O primeiro passo é alertar para a questão dentro do sistema das Nações Unidas, onde há especialistas que podem ter soluções e ideias em uma ação integrada”, diz Michael Stanley-Jones, da ONU Meio Ambiente, o artífice do esforço.

Ele diz, por exemplo, que técnicos da UNFCCC, a convenção sobre mudança climática, têm a perspectiva da emissão de gases-estufa. Os da CBD, a Convenção da Biodiversidade, pensam em termos de perdas de espécies por poluição e várias outras ameaças. Outros conhecem os danos ambientais de produtos químicos lançados no ambiente. “A indústria da moda tem uma cadeia extensa e complicada. Os impactos vão desde o uso de agrotóxicos nas colheitas de algodão ao consumo excessivo de itens e acessórios”, segue Stanley-Jones. “É preciso integrar todos estes especialistas para encontrar saídas”.

O tema foi debatido na semana passada, em Nairóbi, durante a Assembleia Ambiental das Nações Unidas (Unea). A espinha dorsal do evento era discutir soluções inovadoras para a produção e o consumo sustentáveis.

“As pessoas não sabem como as roupas e os acessórios de moda são feitos, onde, em quais condições, com quais recursos”, diz Stanley-Jones. “As estatísticas indicam que 1/3 das roupas são descartadas no primeiro ano da compra”, segue.

Ele atuou durante cinco anos na ONU Meio Ambiente em Genebra, junto ao secretariado das convenções de Basileia (que controla o movimento transfronteiriço de resíduos perigosos), Roterdã (que regula o comércio internacional de produtos químicos perigosos) e Estocolmo (sobre Poluentes Orgânicos Persistentes).

Na Unea foram vários painéis reunindo estilistas divulgando modelos reciclados ou redesenhados. Uma das iniciativas é a “I was a Sari”, que recicla e redesenha os saris indianos e os transforma em bolsas, lenços, blusas, cachecóis e até gravatas.

O setor privado já tem exemplos importantes de empresas tomando a dianteira. A gigante sueca Hennes & Mauritz – conhecida pelas lojas com a marca H&M -, tem várias metas de sustentabilidade no horizonte. Pierre Borjesson, que responde pela marca na África, lembrou que a intenção é não utilizar mais tecidos feitos de algodão convencional em 2020 – hoje o grupo já comercializa 95% de itens com algodão orgânico ou reciclado. O objetivo é usar apenas materiais reciclados ou de produção sustentável em 2030.

“Usamos cada vez mais materiais reciclados”, disse a sueca Lena Pripp-Kovac, da Ikea. Ela citou uma cortina que tem uma nova tecnologia capaz de ajudar a limpar a poluição de ambientes internos.

Na Unea, o eixo da discussão era promover a economia circular. “A estratégia pode ajudar a recuperar químicos, não contaminar água, solo e ar e não utilizar excessivamente recursos naturais”, diz Stanley-Jones, co-secretário da Aliança para a Moda Sustentável.

O compromisso da ONU é de alterar a rota de danos ambientais da indústria da moda e transformar o setor em um dos vetores de implementação das metas globais acordadas pelos países para 2030.

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