Ibovespa cai com pressão por atraso na Previdência; dólar sobe

Fonte: VALOR

SÃO PAULO  –  A preocupação dos investidores com o atraso na tramitação da reforma da Previdência leva os preços da bolsa de valores a passarem hoje por uma forte correção. Sem o suporte do exterior, onde predomina menor demanda por risco, o Ibovespa começa a tarde desta quarta-feira de volta à faixa dos 96 mil pontos.

Em linha com a alta do dólar e dos contratos de juros futuros, o Ibovespa operava em baixa de 1,70% às 13h50, aos 96.639 pontos — na mínima do dia, o índice chegou aos 96.235 pontos. O giro financeiro deu uma pequena pausa na escalada que se viu no começo da sessão, mas já supera os R$ 5 bilhões.

Os investidores relativizam novamente a situação da reforma da Previdência e a possibilidade de que o projeto já em tramitação não seja aproveitado pelo atual governo. Segundo apurou o Valor, o governo Jair Bolsonaro bateu o martelo e a reforma será encaminhada à Câmara como uma nova proposta de emenda constitucional (PEC).

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O giro mais forte logo na abertura acompanhado de uma queda tão demarcada sinaliza que parte dos fundos que montaram posição em bolsa estão atuando com mais força na ponta vendedora, reduzindo essa alocação. Para analistas e operadores, não se trata de um abandono da tese de que a reforma vai avançar, mas um ajuste às novas perspectivas de que o tema talvez não seja apreciado pelos parlamentares tão cedo como se imaginava.

Praticamente todos os papéis do Ibovespa caem, com destaque para os bancos Bradesco (-1,77% a ON e -2,36% a PN) e Itaú Unibanco (-1,89%), além da Vale (-0,99%) e da Petrobras (-1,31% a ON e -1,80% a PN). Varejistas e o setor de infraestrutura lideram as baixas do dia — Via Varejo ON cai 3,90%, Ecorodovias ON perde 3,82% e CCR ON recua 3,79%. Só Braskem PNA (0,39%) e Suzano ON (1,29%) avançam.

“Se for feito dessa maneira, vai atrasar [a tramitação], não há dúvida. Isso traz os ativos de volta à realidade. Não dá para subir todo dia em função de uma possível reforma da Previdência, as dificuldades da pauta ou seus avanços vão continuar fazendo preço”, diz um operador. “Se demorar demais, o investidor cansa e coloca o lucro no bolso.”

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Segundo Matheus Amaral, analista da Toro Investimentos, o ambiente lá fora também ajuda a tirar a força dos ativos locais, depois de indicativos do presidente americano Donald Trump de manter esforços para a construção do muro na fronteira do México — a disputa por recursos para isso e a desavença com o Congresso americano levou a uma paralisação recorde de 35 dias no governo.

Em Nova York, as bolsas americanas persistem em leve queda, mas chama a atenção a baixa de ativos brasileiros negociados por lá. O iShares MSCI Brazil Capped, maior fundo de índice (ETF) ligado a ações brasileiras, cai 2,57%. Já o índice Dow Jones Brazil Titans, índice que mede o desempenho dos 20 maiores recibos de ações (ADRs) brasileiros, recua 2,48%.

Dólar

O risco de que a reforma da Previdência demorará mais para sair do papel aumenta a busca pela proteção do dólar. Nesta terça-feira, a moeda americana saltou logo na abertura do pregão e agora ronda a marca de R$ 3,70, num movimento que deixa o real brasileiro entre os piores desempenhos do dia numa lista das principais divisas globais.

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Por volta das 13h50, o dólar comercial subia 0,91%, aos R$ 3,6999, depois de atingir R$ 3,7159 na máxima – maior nível em uma semana quando tocou R$ 3,7323. A demanda por dólar, em detrimento do real, deixa o câmbio brasileiro na segunda pior colocação do dia num ranking de 33 divisas globais, rivalizando apenas com o dólar da Austrália, que perde 1,40%, após o banco central do país sugerir menos urgência no aperto monetário.

O mercado expressa descontentamento com a decisão do governo de não aproveitar o projeto de Temer. “O processo vai começar tudo de novo. Havia expectativa de que a reforma da Previdência poderia ser votada em abril, o que blindava os ativos locais da volatilidade no exterior e risco de surpresas na cena local. Mas essa chance [de votar em abril] morreu”, diz Luiz Eduardo Portella, sócio e gestor da Novus. “Como o mercado andou muito no começo do ano, é normal diminuir posições e embolsar lucros até o cenário ficar mais claro”, acrescenta.

Para o gestor, agora o mercado deve enfrentar dias de maior volatilidade com a volta dos parlamentares ao trabalho, após o fim do recesso. “Vai demorar mais para votar [a reforma] e o mercado vai conviver com mais incerteza ao longo do caminho. A gente vai ficar mais suscetível a volatilidade externa e as declarações dos deputados vão ter mais impacto. Antes, as expectativas estavam mais ancoradas, agora abriu um flanco para volatilidade”, acrescenta.

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Líder do terceiro maior partido da Câmara, com 38 deputados, Arthur Lira (AL) afirmou nesta quarta-feira que, nas condições de hoje, a Casa não votará a reforma da previdência nem no primeiro semestre deste ano. “Como é que, se você não tem base nem calendário, vai votar um projeto como esses em dois meses?”, questionou. “Esquece dois meses. Nas condições de hoje, não vota nem em seis meses a reforma”, disse Lira.

Por outro lado, o novo calendário para a reforma pode ter um lado positivo a ser avaliado no mercado. Portella destaca que a reforma da Previdência deve ser mais robusta no novo projeto. “É um ‘trade off’ do tempo de tramitação contra a magnitude da reforma. Pelas sinalizações do governo, a nova proposta vai resolver o problema fiscal por mais de dez anos”, diz. “O mercado fica nessa discussão, mas agora prefere embolsar lucros”.

Hoje, o ambiente externo joga contra os mercados emergentes, dando fôlego adicional para a alta do dólar. Em seu discurso sobre o Estado da União, na noite desta terça-feira na Câmara dos Representantes, o presidente dos EUA, Donald Trump, renovou seu pedido por um muro na fronteira sul dos EUA, mas sem repetir suas recentes ameaças de declarar uma emergência e agir unilateralmente. A renovação de uma demanda de 5,7 bilhões de dólares por Trump para na fronteira com México alimentou temores de outra paralisação do governo dos EUA.

“A insistência de Trump em construir o muro na fronteira com o México também aumenta o nível de preocupação, porque não veio nenhum tipo de horizonte para tirar do radar um novo shutdown [paralisação dos serviços federais nos EUA]”, explica o operador Thiago Silencio, da CM Capital Markets.

Juros

A incerteza sobre a reforma também afeta o mercado de juros. Hoje, os contratos futuros são negociados com alta nas taxas, sobretudo os de longo prazo. O DI janeiro de 2025, por exemplo, passa de 8,61% no ajuste anterior para 8,70%.

“O governo vai lançar uma nova PEC, vai precisar passar pela CCJ, e atrasa o trâmite para votar a reforma da Previdência. Isso gera um desconforto, os investidores esperavam algo mais rápido”, afirma David Cohen, sócio e gestor da Paineiras Investimentos.

DI janeiro/2020 é negociado a 6,37% (6,37% no ajuste anterior) e DI janeiro/2021 tem taxa de 7,01% (7,00% no ajuste anterior).

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