EUA enviam ajuda à fronteira da Venezuela, mas logística é mistério

Fonte: Valor

SÃO PAULO  –  Os EUA estão enviando ajuda humanitária à cidade colombiana de Cúcuta, na fronteira com a Venezuela, onde os materiais ficarão armazenados até que possam ser entregues à população, segundo funcionários do governo americano ouvidos pela agência Reuters.

Caminhões com ajuda humanitária vão chegar a Cúcuta nesta semana e os mantimentos ficarão perto da fronteira à espera de condições para que sejam distribuídos na Venezuela. Manter ajuda humanitária em pontos de fronteira por semanas ou meses enquanto funcionários negociam com regimes ou países como ocorrerá a entrada dos mantimentos é comum, dizem especialistas ouvidos pela Reuters.

No entanto, não está claro como a entrada da ajuda acontecerá sem a autorização do ditador Nicolás Maduro e sem a cooperação dos militares venezuelanos, que, até agora, têm se mantido leais ao regime, salvo exceções.

A Venezuela vive uma grave crise econômica, com hiperinflação, desnutrição de parte da população por falta de alimentos e colapso do sistema de saúde, que causou emigração em massa – mais de 2,3 milhões deixaram o país desde 2015, segundo a ONU.

O braço venezuelano da organização internacional Cruz Vermelha, que tem experiência em operações humanitárias, disse que não foi notificada sobre as condições de entrega da ajuda nem sabe no que ela consiste. O presidente da organização, Mario Villarroel, disse que ela não vai participar da entrega da ajuda no país: “Não é nossa função”.

Já Franklin Graham, da organização evangélica Samaritan’s Purse, que presta auxílio a migrantes venezuelanos em Cúcuta há três anos, diz que os grupos humanitários não têm acesso ao território venezuelano. “Não sei como vão fazer isso [entrar com a ajuda] até que a situação política mude”, afirmou.

“O governo da Venezuela precisa abrir as fronteiras e deixar os comboios de alimentos entrarem, abrir os aeroportos e deixar entrar os voos com comida.”

Maduro vem negando o auxílio internacional sob os argumentos de que não há crise na Venezuela e de que a entrada de ajuda serviria como pretexto para disfarçar uma intervenção militar.

Parlamentares da oposição pediram nesta terça (5) que os militares deixem entrar a ajuda. “Vocês sabem que há uma linha vermelha, que remédios, alimentos e insumos médicos são essa linha vermelha”, disse o deputado Miguel Pizarro, que afirmou que, se os militares bloquearem a entrada da ajuda, se criará um cenário “que todos vamos lamentar”.

O parlamentar afirmou que a oposição dará mais detalhes sobre a entrada da ajuda quando ela chegar à fronteira.

No sábado, o líder opositor Juan Guaidó havia dito que ajuda chegaria para o país nas fronteiras da Venezuela com o Brasil e com a Colômbia e em uma ilha no Caribe. Em entrevista à “Folha de S. Paulo” na semana passada, ele disse que esperava ter apoio do governo de Jair Bolsonaro para a entrada da ajuda.

Nesta terça, a Comissão Europeia anunciou que enviaria ajuda de 5 milhões de euros à Venezuela. A ajuda inclui prestação de cuidados de saúde de emergência, educação, acesso a água potável e saneamento, bem como as necessidades de proteção, abrigo, alimentação e nutrição, disse a Comissão.

Do lado político, Maduro enfrenta pressão interna e externa cada vez maior. Em janeiro, Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, fez juramento como presidente encarregado, sob o argumento de que as eleições que deram novo mandato a Maduro (até 2025) foram fraudadas.

Mais de 30 países já reconheceram o líder opositor, entre eles Brasil, EUA e países europeus e latino-americanos.

Guaidó defende que Maduro deixe o poder e se propõe a fazer um governo de transição até que sejam feitas novas eleições presidenciais.

Também em janeiro, os EUA bloquearam bens da estatal PdVSA e impuseram limites aos negócios de empresas americanas com a petroleira, em esforço para cortar importante fonte de recursos do regime, a venda de petróleo.

O papa Francisco disse nesta terça que o Vaticano está disposto a ajudar a mediar a crise política na Venezuela caso todos os lados concordem.

O ditador declarou na segunda (4) a uma TV italiana que enviou carta ao papa pedindo “ajuda em um processo para facilitar e reforçar o diálogo”. O pontífice confirmou que recebeu a carta.

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