Palmer Luckey, visionário da tecnologia, sacode o Vale do Silício ao apoiar Trump

Fonte: ÉPOCA

O geniozinho que aos 21 anos vendeu sua startup de realidade virtual ao Facebook por US$ 2 bilhões, em 2014, não está nem aí para o que pensam dele
Palmer Luckey foi demitido do Facebook. A empresa nega motivação política (Foto: Pedro Fiúza/ NurPhoto/ Getty Images)CONTRACORRENTE Palmer Luckey foi demitido do Facebook. A empresa nega motivação política (Foto: Pedro Fiúza/ NurPhoto/ Getty Images)

A camisa havaiana e os chinelos de dedo, mesmo nas ocasiões mais formais, dão a pista: Palmer Luckey, o geniozinho que aos 21 anos vendeu sua startup de realidade virtual ao Facebook por US$ 2 bilhões, em 2014, não está nem aí para o que pensam dele. O que vale para a roupa vale para a posição política. No Vale do Silício, um território de esmagadora maioria progressista nos costumes, declara-se abertamente apoiador de Donald Trump. E o atual presidente americano (assim como o presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro) não é um conservador qualquer, daqueles ponderados ou conciliadores — é um político com atitude agressiva, que nunca resiste a jogar alguma gasolina nos já inflamados debates sobre imigrantes, racismo, sexualidade, diversidade, religião, meio ambiente e outras questões que costumam separar progressistas (ou liberais, como são chamados nos Estados Unidos) e conservadores. Brasileiros que já se envolveram em discussões entre bolsonaristas e antibolsonaristas sabem do potencial corrosivo desse embate para quaisquer relações, pessoais ou profissionais.

Luckey não se considera um solitário — apenas acha que outros conservadores naquela região do país (e no setor de tecnologia em particular) se sentem oprimidos demais para se expressar. “São muitas pessoas, e elas sabem que podem ter problemas se falarem o que pensam”, disse o fundador da Oculus em evento recente do Wall Street Journal.

Luckey fala em causa própria. Foi demitido do Facebook em março, seis meses depois de vir a público a notícia de que havia doado US$ 10 mil para um grupo dedicado a atacar a candidata democrata Hillary Clinton com memes. O episódio desencadeou uma crise dentro da empresa. Funcionários passaram a questionar por que Luckey continuava na companhia, e desenvolvedores do setor de realidade virtual disseram não querer mais trabalhar com ele.

A razão exata da dispensa não foi detalhada por nenhuma das partes. Em depoimento no Congresso americano, Mark Zuckerberg, presidente do Facebook, negou que a decisão tivesse relação com a posição política do empregado. A redução do papel de Luckey na Oculus e seu comportamento controverso durante o episódio da doação foram a causa da demissão, segundo funcionários ouvidos recentemente pelo WSJ.

Luckey criou o Oculus Rift motivado por seu amor aos games. Agora, dedica-se a desenvolver um sistema de vigilância e defesa (Foto: David Paul Morris/Bloomberg/ getty images )ENXERGA LONGE Luckey criou o Oculus Rift motivado por seu amor aos games. Agora, dedica-se a desenvolver um sistema de vigilância e defesaa (Foto: David Paul Morris/Bloomberg/ getty images )

Ainda no Facebook, o empreendedor havia doado US$ 100 mil para os eventos que celebraram a posse de Trump. Depois de deixar a companhia, Luckey, agora aos 26 anos de idade, ficou ainda mais politizado. Já mostrou indignação pelo Google ter atendido ao apelo de funcionários para que a companhia não fornecesse ao governo dos EUA tecnologia com aplicação militar. Ao lado de três colegas influentes — dois deles com passagem pela Palantir, empresa de analytics que atende o governo americano —, fundou uma startup na área de defesa. A companhia desenvolve um sistema que pode funcionar como um muro digital na fronteira dos EUA com o México, uma bandeira de Trump.

Ao criar o Oculus Rift, o jovem havia sido animado pelo amor aos games. Queria levar o usuário para dentro da “realidade” do jogo. Sua nova iniciativa é diferente. O sistema inclui uma torre que, por meio de sensores, câmeras e inteligência artificial, identifica elementos no entorno e informa, por exemplo, que há 93% de chance de certo objeto que se move ser uma pessoa.
A tecnologia foi testada em uma fazenda no Texas. Em dez semanas, ajudou agentes de fronteira a deter 55 pessoas e apreender 445 kg de maconha, segundo a revista Wired. O fazendeiro, quando recebia no aplicativo os alertas, reportava o fato à polícia. Em San Diego, em outro teste, foram dez ocorrências em 12 dias de uso.

Pelas contas até o momento, monitorar 1,6 quilômetro de extensão com a nova tecnologia custa cerca de US$ 500 mil. Construir um muro físico de 30 metros de altura com esse comprimento custaria 50 vezes mais. O preço soa como música aos ouvidos governamentais.

A startup foi batizada de Anduril, uma referência nerd e belicosa, nome da espada de Aragorn, um dos protagonistas da saga O Senhor dos Anéis (Luckey tem uma réplica da espada no escritório).

Independentemente do contrato que fechar, Luckey (que diz ter despertado como empreendedor depois de ler, aos 13 anos, A Arte da Negociação, de Donald Trump) deixou ao mundo corporativo algumas reflexões difíceis. Um funcionário que expõe publicamente visões políticas gera risco ao empregador? E para empreendedores, há jeito bom ou ruim de assumir opiniões políticas num ambiente polarizado? Em organizações dependentes de criatividade e inovação, é natural ou não que a maioria dos funcionários tenha visão de mundo progressista? Organizações devem se preocupar com diversidade de pensamento, mesmo que seja para incluir quem não se preocupa com diversidade? Luckey, certamente, tem opinião sobre tudo — e agora, novamente dono de seu negócio, pode falar o que bem entender.

Matéria publicada originalmente em dezembro de 2018.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s