Syngenta enfrenta o desafio de construir uma ponte entre as culturas chinesa e europeia

Fonte: ÉPOCA

A tarefa, nada fácil, cabe ao americano Erik Fyrwald, CEO global da companhia
Erik Fyrwald, CEO global da companhia Syngenta (Foto: Rogério Albuquerque)Erik Fyrwald, CEO global da companhia Syngenta (Foto: Rogério Albuquerque)

O engenheiro químico Erik Fyrwald se encontra numa posição ainda rara, mas com a qual mais e mais executivos ocidentais vão ter de se acostumar. É CEO global da Syngenta, uma empresa de biotecnologia e agroquímicos, com raízes profundas na Europa, identificáveis em negócios iniciados na Suíça e no Reino Unido no século 19. Desde 2017, porém, a companhia pertence a uma estatal chinesa, a ChemChina, e, em última instância, ao governo chinês. Erik, um americano de 59 anos, como maratonista experiente que é, gosta de planos de fôlego, mirando no longo prazo. Por isso, parece à vontade com o estilo chinês de pensar em termos de décadas.

A China apresenta também à Syngenta um desafio de outra ordem, fascinante para profissionais de ciências: um país com população enorme, relativamente pouca terra adequada para o plantio e falta de tradição em pesquisa agrícola. O governo chinês conta com a ajuda da engenhosidade da multinacional suíça para alimentar tanta gente. Um dos caminhos é inovar para produzir mais alimentos mundo afora, mesmo sob o espectro das mudanças climáticas.

Erik passou pelo Brasil em outubro, conversou com Época NEGÓCIOS e visitou uma operação de açúcar e etanol em Ribeirão Preto (SP). O país foi fundamental para a Syngenta em 2018: aqui a companhia encontrou o crescimento necessário (após alguns anos de resultados fracos) e comprou uma startup, a Strider, para reforçar sua operação digital.

Como você lida com o fato de a empresa-mãe da Syngenta ser uma estatal chinesa? É uma situação de governança ainda rara no mercado global.
Já dirigi uma companhia aberta listada na Bolsa de Nova York e baseada nos Estados Unidos. Depois vim para a Syngenta, em maio de 2016, quando era uma companhia aberta, listada em Nova York, baseada na Suíça. E em junho de 2017, a empresa foi comprada pela ChemChina. Acho que esta situação atual é a melhor com que já lidei, porque o governo chinês nos deixa à vontade para conduzir o negócio no dia a dia. Eles querem bom desempenho este ano, mas se preocupam igualmente com o desempenho cinco anos, dez anos à frente. Têm visão de longo prazo. Os investidores nos Estados Unidos e na Europa, hoje, são muito impacientes. Preocupam-se principalmente com os resultados do trimestre, com o valor das ações hoje ou amanhã. Isso força empresas a cortar investimento em pesquisa e desenvolvimento, porque esse tipo de iniciativa não oferece retorno rápido. Mas quando eles [os chineses] nos compraram, disseram que, em uns cinco anos, abririam o capital de novo. Querem que continuemos a ser uma companhia global, com o melhor modelo de governança e capaz de atrair os melhores talentos globais.

Isso leva vocês a fazer muita pesquisa na China. Vocês podem usar em outros países o que descobrem lá?
Podemos usar globalmente. Eles nos deixam atuar como uma companhia global, com sede na Suíça, uma operação enorme nos Estados Unidos, outra operação enorme no Brasil… No dia a dia, eles se envolvem mesmo é na operação chinesa. A produtividade agrícola na China não é boa. Eles têm muitos problemas ambientais, contaminação do solo e da água. Por isso, pediram para levarmos nosso conhecimento à China e nos ajudam a desenvolver a agricultura local, a abrir portas, fazer as conexões com os institutos de pesquisa agrícola locais.

A Syngenta emprega cerca de 150 cientistas em Beijing. Um dos objetivos é elevar a produtividade agrícola chinesa (Foto:  Imagens cedidas pela Syngenta)A Syngenta emprega cerca de 150 cientistas em Beijing. Um dos objetivos é elevar a produtividade agrícola chinesa (Foto: Imagens cedidas pela Syngenta)

A Syngenta tem em Beijing um novo centro de pesquisa em edição genética [tecnologia que permite “ligar” e “desligar” características num organismo, sem transgenia]. O que vocês têm feito nesse hub?
Edição de genes é uma ferramenta muito poderosa para o agronegócio. Você pode acelerar o “jogo”, o melhoramento que poderia fazer por meio de cruzamentos, mas que demoraria muitos anos. Você pode fazer isso de modo mais rápido, fácil e barato. Estamos usando a tecnologia com soja e milho — e pode-se pensar em algodão, arroz e trigo. O governo chinês tem um compromisso forte com edição genética: gasta muito dinheiro nisso e coloca recursos à disposição da ciência. Vamos ter produtos a lançar no mercado nos próximos cinco anos. Trabalhamos em resistência das plantas a doenças, para que não sejam necessários defensivos químicos; em sabor dos vegetais; em tempo de prateleira, para que eles demorem mais a estragar; e em resistência à seca, que acreditamos que será cada vez mais importante, por causa das mudanças climáticas. Gastamos US$ 1,3 bilhão por ano em pesquisa, e cerca de 5% disso em edição genética.

Você já disse que tecnologia digital é um pilar da Syngenta. Como assim?
Tecnologias digitais estão transformando todos os setores e agricultura não é diferente. Estamos desenvolvendo ferramentas digitais para o produtor administrar melhor suas propriedades, gerenciar áreas maiores com menos gente, planejar melhor, saber qual semente usar, como está a saúde do solo, quanto usar de defensivos, fertilizantes e água, e também quanto de gases causadores de mudanças climáticas estão emitindo. A indústria de alimentação está cada vez mais interessada nesses indicadores, na emissão de gases, no consumo de água, e vai pagar mais por sistemas mais sustentáveis, por alimentos produzidos assim.

Isso é um negócio em si?
A Strider [empresa mineira comprada pela Syngenta este ano] tem um sistema de gestão com todos esses recursos. Plugamos nela também uma companhia de análise de imagens de satélite que compramos nos Estados Unidos. Nós a mantemos como uma unidade, em vez de fundi-la ao restante do negócio, porque ela tem de se manter focada no que está fazendo, que é ser uma ótima ferramenta digital. Hoje é um negócio, mas cada vez mais vai se tornar um serviço que oferecemos.

Aspas (Foto:  )

A Syngenta vem tentando uma nova abordagem para dialogar com a sociedade sobre tecnologia e agricultura. Isso tem sido difícil para o seu setor.
Nossa frustração tem sido a seguinte: fizemos muito trabalho bom com os fazendeiros, desenvolvemos tecnologia que faz com que sejam mais produtivos, trabalhem com mais segurança, emitam menos gases causadores de mudanças climáticas. [Os produtos oferecem] Também mais segurança para o consumidor. Mas o público não tem reconhecido isso. Então, estamos conversando com o público, governos, empresas de alimentos, ONGs como The Nature Conservancy. Temos 30 dessas conversas em andamento globalmente, quatro delas no Brasil.

Quais tópicos vocês abordam?
Especificamente: o que é agricultura sustentável? muita gente vem dizendo “agricultura sustentável é agricultura orgânica”. Não somos contra orgânicos: consumidores estão dispostos a pagar a mais por eles. Para nós, é um negócio substancial, de algumas centenas de milhões de dólares em sementes e em proteção de lavouras. Mas produção orgânica tem, em média, produtividade 40% menor. Se formos mudar para orgânicos, precisaremos usar muito mais área para produzir o mesmo. Trata-se de um segmento que não é mais nutritivo, que exige mais terra e que, por isso, emite muito mais gases de efeito estufa por volume produzido.

Matéria publicada originalmente na edição de novembro de 2018.

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