Ibovespa se aproxima do nível inédito de 100 mil pontos

Fonte: Valor

Luiz Cherman, do Itaú BBA: perspectivas favoráveis para a economia levaram a uma recente revisão para cima das estimativas de lucro das empresas

Falta pouco para o Ibovespa chegar aos 100 mil pontos. E, para analistas, alcançar essa marca é só uma questão de tempo. A expectativa dos investidores com a reforma da Previdência e a trégua na percepção de risco nos mercados globais vêm dando sustentação ao índice, que na última semana rompeu recorde atrás de recorde e está agora a apenas cerca de 4% de bater a marca simbólica. Dado o nível de confiança dos gestores, a nova barreira pode ser quebrada até mesmo antes da aprovação do ajuste fiscal.

O Ibovespa sobe 9,3% em janeiro e terminou o pregão de sexta-feira no inédito patamar de 96.096 pontos (em alta de 0,78%). Com o desempenho, algumas casas já se preparam para revisar cenários e estabelecer novas projeções para o índice. E reafirmam: está mais do que na hora de estar posicionado na renda variável.

Luiz Cherman, estrategista de renda variável para o Brasil do Itaú BBA, disse ao Valor que já está discutindo a revisão para cima da atual projeção da casa para o Ibovespa ao fim de 2019, de 100 mil pontos. Isso porque as perspectivas favoráveis para a economia levaram a uma recente revisão para cima das estimativas de lucro das empresas neste ano. Os analistas do banco esperam agora um crescimento de 36% nos ganhos das companhias listadas em bolsa, ante uma previsão anterior de 29% de alta do lucro.

Para o estrategista, os investidores que desejam aproveitar as boas perspectivas para a bolsa neste ano “não devem esperar a aprovação da reforma, mas sim estarem posicionados na renda variável desde já”. As expectativas estão guiando os preços para cima a cada dia, e o Ibovespa pode facilmente ultrapassar os 100 mil pontos nesse contexto. São necessários apenas dois ingredientes: o exterior com mínimas condições favoráveis para os emergentes e um governo que siga ancorando as expectativas dos gestores na agenda liberal.

Para Eric Hatisuka, gestor da Rosenberg Investimentos, o Ibovespa deve trabalhar no patamar entre 95 mil e 100 mil por um tempo, antes de buscar novas máximas, pois subiu muito rápido. Mas a tese, hoje, é “comprar e segurar”. “Nossa visão para o ano é de mercado de alta, de forma que não vale a pena para o investidor sair na máxima local para tentar comprar mais barato daqui a alguns meses.”

O Santander também aposta no rompimento da faixa dos 100 mil pontos em algum momento deste ano – o banco projeta que o índice terminará 2019 no patamar de 115 mil pontos. No entanto, na avaliação dos analistas do banco, sinais mais sólidos a respeito da reforma da Previdência podem ser necessários para que o Ibovespa consiga sustentar a atual trajetória de alta.

“Os 100 mil pontos podem representar uma divisão entre o que é expectativa e o que é concreto”, diz Ricardo Peretti, analista da Santander Corretora. Ele afirma que o encaminhamento da proposta de reforma ao Congresso, em fevereiro, pode ser o divisor de águas. Quanto ao conteúdo do texto em si, ele ressalta que a questão da idade mínima aparece como ponto mais importante, dado o impacto relevante desse item nas contas do governo.

O papel do investidor estrangeiro também é importante nessa busca do Ibovespa por recordes. Um gestor de uma asset internacional avalia que o Fórum Econômico Mundial representa uma boa oportunidade para o governo brasileiro mostrar comprometimento com as reformas econômicas, afastando eventuais dúvidas dos agentes financeiros globais. “Se o governo souber vender bem a reforma da Previdência, há um bom espaço para a bolsa caminhar”, diz o gestor.

Segundo os dados mais recentes da B3, os não residentes têm se mostrado mais propensos a aumentar a exposição à bolsa brasileira ao longo dos últimos dias, mas o movimento ainda é tímido. No acumulado do ano, até o dia 16 de janeiro, o fluxo de recursos estrangeiros está positivo em apenas R$ 12,2 milhões – houve entrada líquida de recursos em sete dos últimos oito pregões até a última quarta-feira.

A retomada do fluxo de investimento estrangeiro em bolsa também é apontada por Ronaldo Patah, estrategista do UBS Wealth Management, como fator importante para que o Ibovespa dê continuidade à trajetória de alta – e as sinalizações do Federal Reserve (BC americano) quanto ao ritmo mais lento de alta de juros nos Estados Unidos e o avanço nas negociações comerciais entre os governos americano e chinês contribuem para diminuir a aversão global ao risco.

Para Ivan Kraiser, gestor-chefe da Garín Investimentos, o mercado está “totalmente concentrado” na mudança das regras de aposentadoria, sobretudo em qual será a poupança gerada a partir do texto, ponto essencial para medir a trajetória do endividamento brasileiro. Os fundos de ações da Garín estão 100% comprados em bolsa, enquanto os multimercados também continuam “com um viés de forte compra”.

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