Retrospectiva – Antes de ser eleito, Bolsonaro viveu ano de embates contra a Globo

Fonte: Yahoo

Por Victor Lima

Após uma campanha marcada por fortes ataques à rede Globo, a relação entre o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) e a emissora ainda é uma incógnita. A tendência, entretanto, é de que as principais ameaças do político ao grupo de comunicação não devem se concretizar, segundo especialista.

Em julho deste ano, Bolsonaro afirmou ter uma “tara pela Globo” durante discurso na Associação Comercial, Industrial e Agropecuária de Registro, no interior de SP. O candidato em diversas vezes citou a necessidade de quebrar o sigilo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para descobrir uma lista de devedores nacionais e internacionais, inclusive a própria emissora.

“Eu gosto das novelas deles, que arrebentam com as famílias no Brasil. Eu gosto daquela que faz um programa de manhã: Fátima Bernardes. Também sou vidrado em BBB. No meu governo não vai ter dinheiro para valorizar esse pessoal que faz esse tipo de programa. Pode continuar fazendo, não vai ter censura. Mas dinheiro público?” indagou o político na época.

“Não acredito em uma ação direcionada a uma única empresa, no caso, a Globo. Mas o presidente eleito já sinalizou que irá, sim, buscar mais transparência nas ações do BNDES. E o próprio banco resolveu, nos últimos dias, abrir ao público informações sobre empréstimos e financiamentos, antes mesmo da posse de Bolsonaro”, analisou André Santoro, professor do curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

De fato, o BNDES abriu informações referentes a empréstimos feitos pelo banco – durante as gestões do PT no governo – para empresas que posteriormente foram alvo de investigações da Lava Jato como a JBS e a Odebrecht. Grande parte dos dados está disponível no site oficial do banco, passados anos de pressão promovida pelo Tribunal de Contas da União (TCU) por mais transparência.

Em agosto, Bolsonaro traçou um novo episódio na sua história delicada com emissora durante nada menos que sua entrevista ao Jornal Nacional, a primeira da série realizada com todos os candidatos à Presidência ao longo das eleições.

Logo ao chegar ao estúdio, o candidato bateu continência aos apresentadores William Bonner e Renata Vasconcellos, comparando o clima no estúdio ao de uma “plataforma de tiro”. Ao longo da conversa, ainda se desentendeu com a jornalista quando afirmou que ela deveria receber um salário menor que o de Bonner.

“Seu salário de deputado, nós pagamos. O meu, na iniciativa privada, não sou obrigada a dizer. Mas o senhor saiba que não aceitaria receber menos que um homem na mesma função que eu”, rebateu Renata. A troca de farpas se tornou um dos assuntos mais comentados do Twitter durante a apresentação do jornal e quase todo o dia seguinte.

De acordo Santoro, o posicionamento de Bolsonaro em relação com a Globo e também com a grande mídia se assemelha à de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, com a imprensa local. Mesmo assim, ela não deve causar nenhum tipo de mudança ao longo de sua permanência na Presidência da República.

“Em um primeiro plano, há um declarado desprezo por boa parte dos veículos tradicionais, como a Globo e, especialmente, a Folha de S. Paulo, que não abriu mão de uma postura crítica em relação ao então candidato e agora presidente eleito. A postura de hostilidade do presidente eleito em relação à mídia tradicional não deve ter nenhum efeito direto em seu mandato, mas sinaliza para uma prática que se consolidou nos EUA com Trump e começa a ser mimetizada por aquele que promete vir a ser seu principal aliado na América Latina”, explica o mestre em Comunicação.

“Já no segundo plano, Bolsonaro, seus filhos e aliados têm utilizado com bastante eficiência as mídias digitais, redes sociais e WhatsApp para gerar um fluxo positivo de informações”, continua Santoro, relembrando o poder das redes sociais durante a eleição do candidato do PSL e seus familiares.

Eleito com 55% dos votos contra 47% de Fernando Haddad (PT), Bolsonaro foi tido pelo eleitorado como o único candidato capaz de desmascarar todos os esquemas de corrupção nacional. Além disso, seus apoiadores apostam que o novo presidente reduza o incentivo à imprensa contrária à sua eleição, fato que não deve ocorrer.

“Um presidente brasileiro que fique restrito aos preceitos republicanos e democráticos tem, basicamente, dois modos de agir para beneficiar ou prejudicar canais de TV abertos, bem como estações de rádio. Um deles é o direcionamento de verba de publicidade do Estado. Ele pode privilegiar alguns veículos, em detrimento de outros, com essa estratégia. O outro é a reavaliação das concessões públicas que garantem a transmissão do sinal das emissoras no espectro público de radiofrequência”, conta Santoro.

De acordo com o especialista, alterar contratos de concessão é uma cartada arriscada para o novo presidente. “A primeira medida é utilizada por todos os governos. Não creio que com este será diferente. Bolsonaro já indicou que irá favorecer menos a Globo do que a Record, por exemplo, que tem sido muito mais simpática, do ponto de vista editorial, aos projetos e ideias do presidente eleito. Sobre as concessões, não creio que ele e sua equipe de comunicação queiram mexer nesse vespeiro”, continuou.

Maior conglomerado de mídia do país, a rede Globo sempre tentou acomodar seu posicionamento na tentativa de permanecer próxima aos presidentes desde o período da ditadura. “Houve apenas algumas exceções, como no auge da Lava-Jato e nos impeachments de Collor e de Dilma. Não creio que a rusga entre Bolsonaro e a Globo irá se prolongar, ao menos não nos níveis que vimos durante a eleição”, completou o professor do Mackenzie.

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