Empresas ‘reinventam’ o açúcar para sobreviver

Fonte: Valor

O que é produzido a partir da cana, tem gosto doce, é feito de partículas brancas e pode

ser adicionado a bebidas e receitas, masnão tem calorias e pode ser consumido por diabéticos? John Melo não sabe definir ainda se o alimento desenvolvido pela Amyris é um “adoçante natural” ou um “açúcar saudável”, mas o fato é que a tecnologia da empresa que ele comanda faz parte de uma nova onda de produtos que estão sendo lançados para superar um obstáculo cada vez maior: a pressão decorrente dos crescentes problemas à saúde relacionados à ingestão do açúcar tradicional.

John Melo, CEO global da americana Amyris: novo adoçante superpotente

Os “millennials” engrossaram a “guerra ao açúcar”, mas decisões governamentais também colocaram a indústria contra a parede. Não param de pipocar ao redor do planeta medidas para desestimular o consumo do produto, como a exigência de alertas em embalagens de alimentos com alto teor de açúcar ou a imposição de tarifas incidentes sobre eles (ver infográfico). No Brasil, a indústria de alimentos fechou na semana passada acordo com o Ministério da Saúde para reduzir o uso de açúcar em 144 mil toneladas até 2022, mas se posicionou contra a proposta da Anvisa de rotulagem de alimentos. Daí porque a corrida em busca de soluções inovadoras para sobreviver aos novos tempos ganha competidores.

O reinado da cana chegou a ser questionado após a descoberta do poder adoçante da estévia. Mas, segundo executivos da indústria de açúcar e adoçantes, o amargor característico da estévia não agradou ao consumidor. Além disso, o cultivo manual da planta, sua forte demanda por insumos e o elevado custo para processar sua folha a tornaram pouco competitiva.

“Mas tem uma molécula da estévia que é muito boa, porque é adoçante e não tem o amargor. O difícil é isolar essa molécula da planta. Então resolvemos produzir essa molécula, mas a partir do xarope de cana”, afirma Melo. Através de manipulação própria, diz o CEO global da Amyris, a empresa conseguiu produzir, desse xarope, a mesma molécula existente na estévia, sem calorias e com outras vantagens.

A primeira é que o produto tem um grau de pureza da molécula de 97% – maior do que o obtido com a própria estévia, que fica entre 60% e 70%. A segunda vantagem é que o produto feito do xarope de cana adoça 500 vezes mais que o açúcar da cana – o que, de acordo com Melo, pode ser um importante trunfo para a indústria de alimentos.

A fábrica da Amyris em Brotas (SP) já começou a produzir a novidade. Tem capacidade para até 3 mil toneladas ao ano, que equivalem ao poder de adoçar de 1,5 milhão de toneladas de açúcar e superam, segundo Melo, todo o volume dos demais adoçantes disponíveis no mercado. A fábrica está “colada” a uma usina da Raízen, que fornece o xarope de cana. A purificação do produto será feita em outra unidade, situada no Paraná.

De posse de um certificado de segurança alimentar baseado em requisitos da FDA, a agência regulatória de alimentos e medicamentos dos EUA, a companhia firmou contrato com o ASR Group, maior refinador de açúcar do mundo, para vender 80% do produto nos EUA, no Reino Unido e no México. Para comercializar a inovação no Brasil, a Amyris firmou contrato com a Camil, dona da marca União. Batizado como União Zero, o produto chegará às gôndolas do país assim que for aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A dificuldade enfrentada pela estévia em sua “carreira solo” também levou a holandesa DSM, empresa de biotecnologia que é a principal acionista da Amyris, a trilhar um caminho parecido. A companhia programou uma levedura que fermenta açúcar comum – o açúcar da cana, a sucrose ou açúcares do milho, como dextrose e glucose – e gera as mesmas moléculas presentes na estévia, com zero caloria. “São idênticas às que se encontram na folha, mas não usamos nada dela”, explica Luiz Flávio de Freitas Leite, diretor de negócios da Stevia & Sugar Reduction Platform da DSM.

Segundo Leite, a engenharia permite que a produção do adoçante seja bem maior do que a do adoçante de estévia, o que reduz o custo de produção. E, na comparação com o açúcar, o produto adoça 250 vezes mais, afirma. Com a Cargill, a DSM formou a joint venture Avansya, que está erguendo uma fábrica em Blair, Nebraska (EUA) para produzir o adoçante. A operação deverá começar em 2019.

Poderia ser contraditório uma empresa de açúcar trilhar caminho semelhante, mas é exatamente isso que a francesa Tereos, dona da marca Guarani, começou a fazer. “Fizemos pesquisa com nossos consumidores. Pensávamos que o principal valor fosse tradição, família. Mas a saúde veio como algo muito importante. Entendemos que não podíamos ficar fora da tendência do mercado”, diz Gustavo Segantini, diretor comercial da Tereos Açúcar & Energia Brasil.

A saída foi agregar ao açúcar um adoçante natural. Há dois meses, a Tereos começou a distribuir no Sul e no Sudeste do Brasil seus novos pacotes de açúcar da marca Guarani com estévia, que têm 50% menos calorias que o açúcar refinado e adoça duas vezes mais.

Outra iniciativa é a da alemã Südzucker, maior produtora de açúcar da Europa, que iniciou parceria em julho com a israelense DouxMatok para começar a produzir, até o fim de 2019, um açúcar com composto à base de sílica que permite às indústrias usar um volume 40% menor sem perder o poder de adoçar.

Nas gôndolas, esses produtos deverão competir com os adoçantes artificiais ou com aqueles misturados ao açúcar. Na indústria de alimentos, o maior competidor deve ser o xarope de milho, que movimenta cerca de US$ 4 bilhões ao ano. “Eu vejo, no mundo ideal, apenas açúcar de cana e adoçante de cana”, afirma o CEO da Amyris. Segundo ele, o novo adoçante vai roubar mercado principalmente dos concorrentes produzidos a partir do xarope de milho.

 

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