Diante de sanções, Rússia quer romper com o dólar

Fonte: Yahoo

O primeiro-ministro russo Dmitri Medvedev após uma coletiva de imprensa em Helsinque, Finlândia, em 26 de setembro de 2018

Rublo, euro, yuan… Qualquer coisa, menos o dólar! Num contexto em que as sanções econômicas contra a Rússia parecem se estender a longo prazo, o Kremlin está redobrando seus esforços para afastar a economia russa da moeda americana – imprescindível no comércio mundial.

Debatido durante muito tempo sem resultados importantes, o árduo projeto das autoridades para “desdolarizar” a economia russa é mais necessário que nunca quando a comunidade empresarial teme o anúncio iminente de novas medidas punitivas nos Estados Unidos.

Quatro anos depois da introdução das primeiras sanções ocidentais contra Moscou, devido à anexação da Crimeia e ao conflito no leste da Ucrânia, as restrições são reforçadas nas transações financeiras russas.

E com essas restrições, aumentam os riscos de que aqueles que fazer operações em dólares sejam processados nos Estados Unidos simplesmente por ter usado essa divisa.

Os ministérios de Economia e Finanças, assim como o Banco Central, têm que apresentar em breve medidas ao primeiro-ministro Dmitri Medvedev para estimular o uso de outras moedas nas transações internacionais.

– ‘Limitar os riscos’ –

A restauração de sanções contra o Irã pelo presidente Donald Trump e guerra comercial entre os Estados Unidos e a China parece ser um cenário favorável para alcançar este objetivo, ao empurrar os parceiros da Rússia a aceitar jogar este jogo para proteger seus negócios de uma política imprevisível.

De acordo com analistas da seguradora de crédito Euler Hermes Group, “os esforços anteriores (de desdolarização) fracassaram e revelaram a necessidade de cooperar estreitamente com outros países, o que poderia ser mais simples hoje diante do crescente protecionismo dos Estados Unidos”.

Eles também estimam que reduzir significativamente a dependência do dólar poderia levar entre um ano e meio e cinco anos.

Os candidatos ideais parecem ser a UE e a China, que juntas representam 60% do comércio exterior russo.

Vladimir Putin menciona regularmente essa questão em suas reuniões com líderes estrangeiros, como aconteceu em setembro com seu colega chinês Xi Jinping.

Em outubro, as autoridades russas anunciaram que estavam preparando um acordo intergovernamental sobre pagamentos bilaterais em moedas nacionais com a China.

Segundo o banco ING, as trocas entre a Rússia e a China feitas em rublos ou em yuan quadruplicaram nos últimos quatro anos, embora ainda representem apenas entre 18% e 19%.

Para ir além, o fundo soberano russo criou dois fundos de cooperação com a China de até 70 bilhões de yuans, destinados a transações em moedas nacionais.

“As primeiras transações são esperadas a partir de 2019. Ferramentas de investimento semelhantes poderiam ser criadas com outros países”, sugeriu Dmitri Polevoi, economista-chefe do fundo soberano russo RDIF.

De acordo com os dados do Banco Central da Rússia, entre 2013 e 2017 a proporção de pagamentos em dólares norte-americanos nas exportações de bens e serviços foi reduzida de 80% para 68%. Ao mesmo tempo, a participação do euro aumentou de 9% para 16% e a do rublo de 10% para 14%. Para as importações, o movimento não é tão significativo, mas a participação do dólar passou de 41% para 36%.

Outra amostra dessa tendência: em outubro, o vice-primeiro-ministro russo Yuri Borisov anunciou que a Índia pagaria em rublos pela compra de sistemas antiaéreos russos S-400.

Segundo o economista Oleg Kuzmin da Renaissance Capital, o principal obstáculo para transações em moedas nacionais menos importantes que o yuan é que “ninguém precisa, por exemplo, de rublos russos na Croácia ou da moeda croata na Rússia”.

“Mas, se existir um mecanismo simples e eficaz para trocar diretamente uma moeda por outra, isso pode funcionar”, disse ele. “No caso de sanções muito duras serem adotadas, isso permitiria à Rússia limitar os riscos”.

A presidente do Banco Central, Elvira Nabiúllina, quer “estimular lentamente os bancos a mudar para o rublo” e “reduzir o papel do dólar em seus balanços”, emprestando menos na moeda norte-americana.

Segundo Euler Hermes, outras medidas poderiam prever a transferência dos principais grupos russos dos centros financeiros estrangeiros para a bolsa de valores russa e aumentar as reservas de ouro e euros. A Rússia já reduziu seu volume de dívidas americanas.

Mas, apesar dessas grandes intenções, a Rússia tem um grande obstáculo: sua economia ainda depende em grande parte dos hidrocarbonetos, que são cotados em dólares.

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