Banco dos Brics dá crédito a aliados de Putin sob sanção

Fonte: VALOR

O Novo Banco do Desenvolvimento (NBD), conhecido como banco dos Brics, aprovou financiamento de US$ 300 milhões para uma companhia russa controlada por três oligarcas do círculo íntimo do presidente da Rússia, Vladimir Putin, incluindo um ex-genro dele, abrindo um risco de reputação para a instituição.

A operação do banco, controlado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, fornecerá crédito barato e sem condicionalidades à gigante de petroquímica Sibur. Seus controladores foram atingidos pela lista de sanções impostas em abril pelos EUA contra a elite russa, o que restringe suas transações com instituições bancárias ocidentais.

O primeiro deles é Kirill Shamalov, que, há cinco anos, ao se casar com a filha mais nova de Putin, Katerina Tikhonova, tornou-se repentinamente bilionário. Mas o casamento acabou no começo deste ano, e Kirill viu sua fortuna derreter de cerca de US$ 2 bilhões para US$ 500 milhões. No entanto, a conexão com o Kremlin se mantém por meio de seu pai, Nikolai Shamalov, velho amigo de Putin dos tempos de São Petersburgo, de onde são originários.

O segundo é Gennady Timchenko, bilionário considerado um dos três oligarcas mais próximos de Putin. Ele produz gás em campos que obteve a preço barato da Gazprom e constrói oleodutos para essa mesma empresa, em contrato sem licitação. Recentemente, ele teve que vender seu jato privado porque as sanções americanas contra ele tornaram impossível usar o aparelho.

Leonid Mikhelson, coproprietário da produtora de gás Novatek, é o terceiro e o que tem a maior fatia na Sibur, com 48,5%. Timchenko tem 17%. Kirill, o ex-genro de Putin, chegou a ter mais de 20% mas agora teve reduzida sua participação a 3,9% no rastro do divórcio da filha de Putin.

Os três tem em comum a forte participação no capitalismo de compadrio (“crony capitalism”), que é a base de poder do presidente russo. São os amigos poderosos com influência política, econômica e controle sobre os recursos nacionais que dependem diretamente da proximidade com o Kremlin, vistos no país como estando acima de lei e prestando contas apenas a Putin.

“Os oligarcas e a elite russa que lucram com esse sistema corrupto não serão mais isolados das consequências de atividades desestabilizadoras de seu governo”, afirmou o secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, em abril, quando o governo Trump impôs sanções a vários oligarcas e empresas russas, incluindo o setor de energia, como retaliação à acusação de interferência de Moscou nas eleições americanas de 2016.

Pelas sanções, o Tesouro dos EUA exige um congelamento de contas no exterior. Os cidadãos dos EUA não podem mais fazer acordos com os indivíduos russos visados, e cidadãos não americanos também podem enfrentar sanções se tentarem facilitar as transações em nome de empresas ou indivíduos alvos da sanção.

O banco do Brics, porém, que quer ser um novo tipo de instituição, focada em desenvolvimento sustentável, não quis comentar o caso. Questionado pelo Valor, o banco respondeu que “não comenta questões políticas”.

O banco não respondeu se estava ciente da “lista de oligarcas” sofrendo sanções, se via risco de reputação com a transação, se essa operação podia ser repetida e se temia alguma reação dos EUA. O NBD planeja fazer emissões em dólar no mercado internacional, para aumentar a sua capacidade de financiar os cinco países sócios.

“O banco tem uma espada na cabeça, e deveria ter receio com o risco de reputação”, afirma um analista que conhece a instituição dos cinco grandes emergentes.

Uma inquietação é que esse seja apenas o primeiro dos créditos para companhias próximas a Putin.

Nesta semana, o presidente do banco, o indiano K.V. Kamath, recebeu o primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, na sede da instituição em Xangai. O NBD anunciou que vai abrir um escritório na Rússia no ano que vem, depois do estabelecimento do escritório regional africano na África do Sul e do escritório das Américas no Brasil. Desde seu lançamento, o banco aprovou seis projetos na Rússia, com um total de créditos de US$ 1,5 bilhão.

O banco do Brics anunciou o financiamento para a Sibur em meados de setembro, num discreto parágrafo de duas linhas e meia, no meio de um comunicado à imprensa com várias decisões tomadas pelo seu conselho de diretores.

O financiamento de US$ 300 milhões é para melhorar a segurança ambiental no complexo petroquímico ZapSibNeftKhim, que está em desenvolvimento na Sibéria. O montante é uma pequena parte do pacote total de US$ 9,5 bilhões para a construção do maior centro de petroquímica russo – que visa triplicar a produção de polímeros usados para fazer produtos plásticos e dobrar o faturamento.

O governo de Vladimir Putin continua a rejeitar a entrada como cotistas no banco do Brics de países desenvolvidos que aplicam, contra a Rússia, sanções econômicas que não foram aprovadas pelas Nações Unidas. Isso inclui as sanções adotadas pela União Europeia (UE) e pelos EUA em julho de 2014, em resposta a ações de destabilização atribuídas a Moscou no leste da Ucrânia e à anexação da região ucraniana da Crimeia, considerada ilegal.

Segundo Tatiana Kastouéva-Jean, diretora do Centro Rússia, do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri), até agora o impacto das sanções externas sobre a economia russa tem sido modesto. Para ela, é mais provável um efeito no longo prazo, com problemas na transferência de tecnologia, por exemplo. Os efeitos indiretos são também importantes, aumentando as incertezas e degradando o ambiente de negócios no país.

Para a especialista, mesmo setores não atingidos por sanções enfrentam um recuo de investimentos nacionais e estrangeiros. “Essa situação ameaça agravar as dificuldades estruturais da economia russa, desacelerar o desenvolvimento e impedir a diversificação”, diz ela.

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