Ipsos: brasileiros não se sentem representados por grupos e instituições

Fonte: ÉPOCA

Estudo aponta que ceticismo sobre país faz com que população queira fugir do presente e contribui com desequilíbrio emocional
Manifestação Mulheres contra Bolsonaro no Largo da Batata, em São Paulo, em 29 de setembro de 2018 (Foto: Rovena Rosa/Fotos Públicas)Conflitos políticos influenciaram estudo qualitativo sobre compartamento e consumo dos brasileiros  (Foto: Rovena Rosa/Fotos Públicas)

Os contratempos políticos e econômicos vivenciados pelos brasileiros nos últimos quatro anos mudaram a forma como a sociedade se comporta e consome. Com o clima de tensão, hoje as pessoas não se sentem tão representadas por instituições e grupos — como os de bairro, igreja, universidade e política — como antes.

O retrato faz parte da “8ª Onda do Observatório de Tendências”, estudo qualitativo realizado a cada quatro anos pelo Instituto Ipsos, empresa de pesquisa e de inteligência de mercado, e divulgado em primeira mão pela Época NEGÓCIOS. “Em um país polarizado, a afinidade de grupos não é suficiente para dar conta da tensão da população. Eles [grupos] não vão acabar, só serão mais questionados”, afirma Clotilde Perez, coordenadora do estudo.

O estudo ainda captou sinais de mudanças em temas como consumo, globalização, relação com tecnologia e cuidados com a saúde. Todos estão desenvolvidos abaixo. A partir de pesquisa bibliográfica, entrevistas, análises e grupos de discussão, o Ipsos levantou sete tendências de comportamento e consumo dos brasileiros, entre elas a, já citada, perda de força dos grupos de representatividade.

1 – Tecnologia e globalização
Na última pesquisa, há quatro anos, a tecnologia estava ligada ao ser humano apenas superficialmente, como nos relógios inteligentes e óculos de realidade virtual. “Agora, ela foi absorvida e incorporada pelo ser humano, a exemplo da biotecnologia e da nanotecnologia. Os algoritmos assumem uma centralidade inédita, com a possibilidade de transformar praticamente todas as áreas da vida”, conclui Clotilde.

2 – Fratura dos grupos de representatividade
Com a crise política e econômica do país, o sentimento principal do brasileiro é de desalento, com os grupos de representatividade enfraquecidos, incapazes de oferecer acolhimento ou segurança aos integrantes.

“Nenhum grupo identitário, definido por gênero, aparência ou classe social, se sente plenamente reconhecido, representado e respeitado. Isso provoca o deslizamento dos afetos: das pessoas para os animais, das instituições públicas para as marcas, do humano e afetivamente complexo para o tecnologicamente seguro”, explica a coordenadora do estudo.

Clotilde Perez, coordenador de pesquisa do Instituto Ipsos (Foto: Divulgação)Clotilde Perez, coordenadora do “Observatório de Tendências”, do Instituto Ipsos (Foto: Divulgação)

3 – Conscientização do consumo
Em 2018, os brasileiros passaram a equacionar melhor a importância do consumo para a vida. No estudo de 2014, pelo contrário, as despesas foram vistas como possível solução para os problemas financeiros do mundo. Não à toa, o crédito foi cortado logo em seguida no Brasil, com a deflagração da crise econômica nacional, retoma Clotilde.

4 – Fuga do presente
A relação do homem com o tempo vem como desejo de fuga, aponta o último “Observatório de Tendências”. “Escapar do presente é a grande questão que aparece. O caminho tem sido resgatar as referências do passado para entender o presente e rever os planos para o futuro. Mas do passado ressuscitam também antigos fantasmas que nos assombram”, afirma a coordenadora do estudo.

Clotilde explica que as pessoas se sentem amparadas pelo desenvolvimento tecnológico e percebem a constante aceleração em relação ao futuro, mas não têm nenhuma convicção de que encontrarão refúgio para as suas angústias. 

5 – Cuidados com a saúde
O bem-estar evoluiu, junto com a medicina. Neste sentido, ganha importância um corpo bonito e saudável. O grande paradigma da atualidade, no entanto, está em manter a mente em equilíbrio.  “Hoje, a sensação é a de que todos os caminhos e possibilidades levam a um bem-estar do corpo concreto, da saúde física e da aparência estética — com graves prejuízos à sanidade da mente e ao equilíbrio espiritual”, pondera Clotilde.

6-  Espetacularização do cotidiano
De acordo com o Ipsos, o cotidiano do brasileiro provocou a busca por mecanismos de ruptura e radicalização. “Não se trata mais de romper com a rotina. Agora, todos os instantes podem ser de alguma forma extremos e disruptivos. A agressividade está naturalizada, midiatizada, estetizada, ao ponto de não mais chocar nem agredir propriamente”, analisa.

7- Especialização tecnológica
Com o aperfeiçoamento da tecnologia, a criatividade e a pró-atividade foram ainda mais valorizadas. “Softwares, redes e máquinas permitem uma produção individual cada vez mais interessante e que tem impactado positivamente o mercado. Tudo isso com influência direta na qualidade da produção artesanal, na criação e na distribuição de conteúdos culturais, e na valorização da criatividade e do empreendedorismo”, conclui Clotilde.

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