Por que Kim Jong-un só ganhou agora um retrato oficial como líder da Coreia do Norte?

Fonte: BBC

Retrato de Miguel Díaz-Canel ao lado de Kim Jong-unKCTV
Primeiro retrato de Kim Jong-un (à dir) foi exibido ao lado do feito em homenagem ao presidente cubano, Miguel Díaz-Canel

A Coreia do Norte revelou ao público o que parece ser o primeiro retrato oficial de Kim Jong-un, alçando o líder a um nível ainda mais alto de culto a sua personalidade.

A pintura foi exibida no aeroporto de Pyongyang no final de semana, durante a visita do presidente cubano, Miguel Díaz-Canel. Os retratos dos dois líderes foram exibidos lado a lado.

“É a primeira vez que um retrato do tipo (de Kim Jong-un) foi apresentado em um local público”, diz à agência AFP Cho Han-bum, analista do centro sul-coreano Instituto da Coreia para a Unificação Nacional.

Enquanto seu avô e seu pai – respectivamente, o fundador da Coreia do Norte, Kim Il-sung, e seu sucessor, Kim Jong-il – têm retratos e estátuas espalhados por locais públicos e privados de todas as cidades do país, Kim Jong-un ainda não tinha tais representações, apenas fotografias oficiais divulgadas pela mídia estatal. Isso mudou neste fim de semana.

Mas por que demorou tanto para ser feito um retrato oficial, considerando que Kim comanda o país há sete anos?

Uma explicação possível é a de que ele foi, por muito tempo, visto apenas como um sucessor e discípulo, e não como um líder propriamente dito.

O papel de Kim foi gradualmente mudando ao longo do tempo, sobretudo ao longo deste ano, com a ajuda de uma série de viagens e visitas internacionais e de um grande protagonismo na aproximação com o presidente dos EUA, Donald Trump.

Kim Jong-unKCNA
Kim Jong-un foi alçado ao poder quando ainda era visto como inexperiente e manipulável, mas ganhou protagonismo inédito neste ano

A ascensão

Kim Jong-un foi alçado à liderança de seu país após a morte repentina de Kim Jong-il, em 2011, e visto à época como um comandante pouco experiente e suscetível a manipulações.

Desde então, porém, ele adaptou a agenda militarista do pai, combinando-a a uma tentativa de estimular a economia ao mesmo tempo em que desenvolve um programa de armas nucleares.

E o ano de 2018 acabou sendo crucial para solificar sua imagem, interna e externamente.

Foi neste ano que Kim fez suas primeiras viagens oficiais internacionais, encontrando-se com os presidentes da China e da Coreia do Sul, e também protagonizou uma cúpula inédita com Donald Trump – o primeiro encontro do tipo entre líderes dos EUA e da Coreia do Norte.

Foram, no total, oito encontros com chefes de Estado internacionais, “para o deleite dos propagandistas de Pyongyang, ajudando-s a retratar (Kim) como um estadista respeitado internacionalmente, equivalente (ao chinês) Xi Jinping e a Donald Trump”, afirma à BBC Oliver Hotham, analista da NK News, agência americana de notícias sobre a Coreia do Norte.

“O fato de uma pintura de Kim ter sido divulgada é uma forte pista de que o regime pode estar começando a agir para estimular um culto à personalidade dele.”

Retratos de Kim Il-sung e Kim Jong-ilReuters
Retratos de Kim Il-sung e Kim Jong-il estão espalhados por todas as cidades norte-coreanas

“Isso (o retrato) é importante porque, simbolicamente, o iguala a seu pai e ao avô”, agrega Peter Ward, analista do regime norte-coreano. “Ele agora é um líder com política, estilo e ideias próprias, e não mais apenas um mero seguidor dos que vieram antes dele.”

Por enquanto, o retrato só foi exibido na TV durante a visita do presidente cubano e não está claro o que será feito dele – ou mesmo se esse tipo de propaganda se tornará comum com Kim Jong-un a partir de agora.

Para Andray Abrahamian do Instituto Griffith Asia, é possível que a pintura seja armazenada em algum local sob forte segurança e exibida apenas em ocasiões especiais.

O que se sabe com certeza é que simbolismo e o imaginário coletivo são parte muito importante da sustentação do regime norte-coreano.

“Retratos, slogans e pôsteres estão no cerne da mensagem de um país socialista”, explica à AFP Yang Moo-jin, professor da Universidade de Estudos Norte-Coreanos, em Seul.

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