Caravana de migrantes chega à Cidade do México, marco crucial de polêmica caminhada até os EUA

Fonte:BBC

Migrantes.Getty Images
A chegada dos migrantes à Cidade do México é considerada um ponto crucial na trajetória do grupo

Uma Cidade do México nublada e chuvosa receberá nos próximos dias boa parte dos milhares de migrantes da caravana que deixou Honduras em 12 de outubro. Eles estão indo rumo aos Estados Unidos.

As primeiras centenas de pessoas chegaram neste domingo e já estão agrupadas nas arquibancadas do estádio Jesús Martínez “Palillo”, na capital mexicana.

Eles estão visivelmente cansados. A maioria, assim que chegou, cobriu-se com os cobertores que foram oferecidos e deitou-se para descansar.

“Tem sido uma jornada extremamente difícil, especialmente para as crianças. Andamos muitos dias, sofrendo com a inclemência do sol, da chuva e às vezes passando fome”, diz um deles.

Chegar na Cidade do México representa uma esperança para os migrantes.

“É o lugar que achamos mais seguro”, explica Rodrigo Abeja, da ONG Pueblos sin Fronteras, que acompanha a caravana desde sua criação.

Como todos os entrevistados, Abeja considera a cidade um ponto “crucial”.

Ele diz que a recepção na capital tem sido melhor do que em outros Estados e com uma visão mais humanitária, já que foram enviadas antecipadamente unidades de assistência médica, psicológica e alimentar.

‘Vamos mantê-los trancados’

Os migrantes esperam que a Cidade do México seja um ponto de encontro para as diferentes ondas de pessoas que andam pelo país, entre 5 e 8 mil, segundo diferentes fontes.

“Aqui, saberemos o que fazer a partir de agora”, diz Guadalupe García, uma hondurenha que integra a caravana.

Caravana.Getty Images
Segundo migrantes, sua recepção no país teve um toque mais humanitário

Esta também é a percepção de várias organizações de ajuda humanitária.

“Além de garantir espaços, cuidar da saúde e da nutrição das pessoas em migração, na Cidade do México temos um papel muito importante: dar informação para que eles possam tomar as melhores decisões”, explica a presidente da Comissão de Direitos Humanos da capital, Nashieli Ramírez.

As pessoas da caravana são, em sua maioria, de origem humilde e têm pouco conhecimento das leis do México e dos Estados Unidos, o que pode levá-las a tomar decisões equivocadas, diz Leticia Calderón, pesquisadora do Instituto Mora.

“O que deve ser feito é dar informações para que eles decidam por si próprios. Por exemplo, como fazer um processo para permanecer no México ou quais são as políticas migratórias neste momento nos Estados Unidos, inclusive no contexto das eleições (legislativas)”, explica a especialista em processos migratórios.

Estados Unidos.Getty Images
Milhares de soldados americanos esperam os migrantes para impedir sua entrada nos Estados Unidos

Na semana passada, no período que antecedeu as eleições legislativas (que acontecerão nesta terça-feira, 6 de novembro), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que seu governo está preparando um endurecimento na gestão dos pedidos de asilo para o país.

“Nós vamos pegá-los, vamos mantê-los trancados até que a audiência de asilo ou deportação seja realizada”, disse em um encontro com jornalistas na Casa Branca.

Até agora, as pessoas que buscam asilo permanecem em liberdade sob proteção, o que lhes permite ficar no país até que o julgamento sobre sua situação migratória seja realizado.

“Essas caravanas ilegais não serão permitidas nos Estados Unidos e deveriam dar a volta agora mesmo”, disse Trump, que qualificou de “invasão” a chegada de imigrantes à fronteira.

Além disso, ele afirmou que militares podem atirar no grupo se forem atacados.

Mexicanos a favor e contra

O governo do México, por sua vez, anunciou um plano chamado “Você está em casa” com o qual pretende facilitar a concessão do status de refugiado para os milhares de centro-americanos da caravana.

“O México quer proteger e apoiar vocês. A única maneira de fazer isso é se vocês regularizarem sua estada no país e cumprirem nossas leis”, disse o presidente Enrique Peña Nieto.

Caravana.Getty Images
Migrantes rejeitaram o plano do presidente mexicano por considerar que não responde às causas do êxodo

Ele afirmou que um programa de emprego temporário e atendimento médico estaria incluído nessa ideia. Mas uma das principais condições era que os migrantes ficassem nos estados sulistas de Chiapas e Oaxaca.

No entanto, o grupo respondeu em carta aberta que o plano não responde às causas do “êxodo”.

Os integrantes da marcha que já estão na Cidade do México são parte da primeira onda da caravana, que saiu de Honduras há mais de 20 dias.

Outros milhares estão no Estado de Puebla e os demais estão um pouco atrás, em Chiapas.

O presidente mexicano eleito, Andrés Manuel López Obrador, que assumirá o cargo em 1º de dezembro, prometeu vistos de trabalho a imigrantes que desejam permanecer no país.

De acordo com a reconhecida empresa de pesquisas Consulta Mitofsky, essa proposta polariza a sociedade: apesar de 51% dos mexicanos entrevistados apoiarem o avanço da caravana, um terço deles rechaça o movimento e quer que os migrantes sejam pressionados a voltar a seus países.

Aqueles que apoiam os migrantes pedem que sejam tratados com solidariedade. Aqueles que os rejeitam argumentam que os estrangeiros representam mais insegurança para a população mexicana.

Êxodo sem precedentes

Embora a maioria dos migrantes seja de Honduras, também há pessoas da Nicarágua e da Guatemala no grupo em marcha. As últimas pessoas a se juntarem ao movimento partiram em 28 de outubro de El Salvador.

Caravana.Getty Images
Número de migrantes centro-americanos em trânsito no México devem estar entre 5 e 8 mil pessoas

Na Cidade do México, dezenas de pessoas se esforçam para ajudar os recém-chegados.

Entre eles está Amanda Súcar, vítima do terremoto de 19 de setembro do ano passado, que atingiu a capital mexicana.

“Recebi roupas quentes na época em que mais senti frio na vida. Agora, estou em uma situação um pouco melhor e quero ajudar no que posso. Não quero que essas pessoas pensem que estão vindo para um país onde vão ser maltratadas”, diz.

Para a capital do México esta é uma situação nova, diz a presidente da Comissão de Direitos Humanos da cidade.

“Nunca recebemos tantos migrantes de uma só vez, é um êxodo sem precedentes. Além de ser um país de trânsito, destino e expulsão de migrantes, o México pode se tornar um país de refúgio: isso requer novas políticas públicas que tratem dessa situação.”

Por enquanto, no estádio onde milhares de migrantes devem chegar nos próximos dias, as autoridades se apressam para construir grandes tendas a fim de proteger os recém-chegados das chuvas e do frio.

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