Eleições 2018: Os candidatos que estavam atrás nas pesquisas e foram levados por ‘onda Bolsonaro’ ao 2º turno

Fonte: BBC

Jair Bolsonaro Direito de imagem Fabio Pozzebom/Agência Brasil
Image caption Bolsonaro (PSL) alavancou candidatos aliados por todo o país

Pelas ruas da zona sul do Rio de Janeiro, na manhã deste domingo, dia de votação, uma das perguntas que mais se ouvia era: “quem é esse tal Witzel?”

Não havia consenso nem sobre a pronúncia do nome – se “Uitzel”ou “Vitzel”.

Mesmo desconhecido de parte da população, Witzel (pronuncia-se “Vitzel”) se tornou o candidato a governador mais votado no Estado. O ex-juiz federal, candidato pelo PSC, foi de nanico a líder na disputa pelo segundo turno. Concorreu contra Eduardo Paes (DEM), ex-prefeito da capital, e desbancou o senador Romário (Podemos).

Fenômeno similar aconteceu em outros Estados, como Minas Gerais e Santa Catarina, no caso da disputa pelo governo do Estado, e em São Paulo, na corrida por uma vaga no Senado. A BBC News Brasil ouviu especialistas para entender o que aconteceu.

Quem são os vencedores surpresa

Wilson Witzel (PSC) é ex-fuzileiro naval e ex-juiz federal – cargo do qual se licenciou para disputar o governo. Foi de 9% nas intenções de voto no início de outubro para 42% nas urnas.

Wilson Witzel Direito de imagem MAURO PIMENTEL/AFP
Image caption O crescimento de Wilson Witzel (foto) não foi captado pelas pesquisas

A surpresa em relação a Witzel começou no sábado, quando a pesquisa Datafolha apontou que ele tinha 17% das intenções de voto, a mesma proporção que Romário.

Nas últimas semanas, Witzel vinha associando sua imagem à de Bolsonaro – declarou voto a ele no debate da TV Globo e fez campanha ao lado de Flávio Bolsonaro, filho de Jair e eleito senador neste domingo pelo PSL.

Em redes sociais, é comum ver eleitores fluminenses de Bolsonaro apoiando o ex-juiz e fazendo comentários contra Eduardo Paes, a quem chamam de corrupto.

“Witzel tem uma trajetória muito afeita ao tempo que vivemos. Faz o discurso do combate à corrupção, de limpar a política”, diz Humberto Dantas, cientista político e conselheiro do Movimento Voto Consciente.

Ao votar, Witzel disse que não se surpreendeu com seu crescimento nas pesquisas, pois já estava “sentindo o termômetro das ruas”.

À imprensa local, disse que não se considera “de direita radical”, mas de “centro-direita”.

Em relação à segurança pública, uma das principais preocupações da população fluminense, Witzel vem endurecendo seu discurso.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, feita em junho, disse ser contra a “política de confrontos” da Polícia Militar com traficantes. É como se costuma chamar a tendência da PM do Rio de optar por operações com troca de tiros com criminosos, que muitas vezes atingem também moradores inocentes.

Mais recentemente, em setembro, disse ao jornal O Globo que uma pessoa “com fuzil na mão” deve ser “abatida”, e que daria “defesa jurídica” aos policiais que matassem em confronto. Jair Bolsonaro defende, em seu programa, um “excludente de ilicitude” para policiais que matam supostos bandidos em confronto.

O senador Romário Direito de imagem Divulgação/Romário
Image caption No Rio, Romário (Podemos) acabou ficando de fora do 2º turno na disputa pelo governo, desbancado por Witzel (PSC)

O cientista político Humberto Dantas lembra ainda que algo similar aconteceu em Santa Catarina, onde a chegada de Comandante Moisés (PSL) ao segundo turno não foi prevista por pesquisas de intenção de voto.

Moisés é coronel da reserva do Corpo de Bombeiros. À imprensa local, disse, assim como Witzel, que sentia nas ruas que as pesquisas estavam erradas e que a população clamava por “renovação”. O primeiro colocado, Gelson Merisio (PSD), também declara apoio a Bolsonaro.

Em Minas, o candidato do partido Novo Romeu Zema surpreendeu e chegou ao segundo turno na liderança, com quase 43% dos votos. Na pesquisa de sábado, Zema estava na terceira colocação, com 23% das intenções de voto, atrás de Anastasia e Pimentel. A três dias do 1º turno, disputava o segundo lugar com Fernando Pimentel (PT).

No debate da TV Globo, Zema disse que aqueles que quisessem algo novo deveriam votar em João Amoêdo, do seu partido, ou em Bolsonaro.

Zema é empresário de Araxá (MG), no Triângulo Mineiro, dono de lojas de eletrodomésticos.

Em São Paulo, o deputado federal major Olímpio (PSL) foi eleito para o Senado. Ele foi coordenador da campanha presidencial Bolsonaro no Estado. No sábado, dia anterior à votação, estava em terceiro lugar, com 16% dos votos válidos.

Onda conservadora e escolha de voto de última hora

Para Humberto Dantas, o sucesso de candidatos do partido de Bolsonaro ou que atrelam sua imagem a ele indica mérito pessoal do capitão da reserva, mas também é sinal de uma tendência mais ampla, da qual Bolsonaro faz parte.

“O Brasil virou à direita. Ele é figura importantíssima, mas o que está acontecendo é maior do que ele. Trata-se de um movimento que tem como principais características o antipetismo, a antipolítica e o conservadorismo”, diz o cientista político.

O senador eleito Major Olímpio Direito de imagem Gabriela Korossy/Agência Câmara
Image caption Major Olímpio (PSL) desbancou Eduardo Suplicy (PT) e se elegeu senador por São Paulo

Dantas diz também que mudanças no financiamento de campanha podem ter tido impacto nos resultados surpreendentes.

“O eleitor brasileiro médio é alguém em quem as campanhas com dinheiro sempre chegaram. Neste ano, com menos dinheiro e menos tempo, não conseguiram chegar. Ganhou o WhatsApp e outras redes sociais. É possível que os partidos tradicionais não tenham compreendido como fazer campanha com menos recursos.”

Nenhum desses candidatos aparecia como favoritos nas pesquisas. Segundo o cientista político Cláudio Couto, especialista em gestão pública da FGV-SP, é comum que elas indiquem resultados diferentes do final quando se trata de disputas locais, pois a atenção do eleitor costuma se concentrar mais na corrida nacional.

“As pessoas decidem mais perto do dia de votação, muitas vezes, no próprio dia. Neste ano, com uma campanha tão polarizada, é possível que esse fator tenha sido ainda mais forte.”

Para ele, isso não significa que as pesquisas errem. “As pesquisas captam o que está acontecendo naquele momento, e não o que vai acontecer. O mais importante é observar as tendências que elas indicam, e não o resultado. É como previsão do tempo: assim como o tempo muda, também muda o humor do eleitor.”

Janaína Paschoal Direito de imagem Agência Brasil
Image caption Janaína Paschoal (PSL) é a mais votada para a Assembleia Legislativa de SP

Já Humberto Dantas acha que pode, sim, haver falhas na metodologia das pesquisas. “Ou as pessoas estão decidindo seus votos na cara da urna ou há algo errado. É possível que o eleitorado esteja se movendo de um jeito que os institutos não conseguem captar.”

Partido nanico de Bolsonaro ganha espaço

O partido de Bolsonaro, o PSL, viu sua bancada aumentar consideravelmente. Deve ultrapassar a marca de 50 cadeiras na Câmara – se tornará a 1ª ou 2ª maior legenda na Casa. Em São Paulo, o partido teve 20% dos votos e elegeu os deputados mais votados – Eduardo Bolsonaro, filho de Jair, e Joyce Hasselmann (federais) e Janaína Paschoal (estadual).

No Rio de Janeiro, o partido também ganhou força.

O deputado federal que recebeu mais votos no Estado foi Helio Fernando Barbosa Lopes (PSL). Flávio Bolsonaro (PSL), outro filho do ex-capitão, foi o senador mais votado.

Para a Alerj (Assembleia Legislativa do Rio), o mais votado foi Rodrigo Amorim (PSL), que chamou a atenção nos últimos dias por quebrar uma placa de homenagem à vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada a tiros no início deste ano.

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