Fortalecimento de Bolsonaro nas pesquisas gera euforia no mercado

Fonte: VALOR

O mercado financeiro embarcou numa onda de euforia, impulsionado pelas movimentações da disputa eleitoral. Jair Bolsonaro (PSL) ampliou a vantagem em relação a Fernando Haddad (PT), segundo as pesquisas Ibope e Datafolha, mesmo após os protestos contra sua candidatura no fim de semana. A ideia de uma definição em primeiro turno, mesmo considerada ainda improvável por analistas políticos, chegou a ser discutida entre profissionais de mercado ontem.

Essa nova visão do cenário eleitoral gerou a reação mais intensa a uma pesquisa de intenção de votos desde o início das campanhas. E o rali ainda pode continuar hoje, com a confirmação do quadro pela pesquisa Datafolha, divulgada no início da noite de terça.

O dólar fechou ontem em queda de 2,09%, a R$ 3,933, o menor nível desde 17 de agosto. Há três meses a moeda americana não registrava uma variação tão intensa de fechamento. No caso do Ibovespa, que avançou 3,80%, aos 81.612 pontos, trata-se da maior variação numa única sessão desde novembro de 2016. Com o fortalecimento do real, o ganho do Ibovespa contabilizado em dólar no dia foi ainda mais expressivo: 5,82%. O movimento aconteceu numa sessão de forte giro financeiro – R$ 13 bilhões -, demonstrando o aumento do apetite do investidor. Isso num dia negativo para ativos de risco no mercado externo, o que confirma que, desta vez, o investidor se movimentou olhando apenas para o noticiário político.

Segundo fontes, houve presença importante de investidores estrangeiros, que vêm ampliando as compras nas últimas duas semanas, atraídos pelos preços baixos dos ativos brasileiros, especialmente quando contabilizados em dólar. Mas a grande mudança na dinâmica do mercado foi a presença dos fundos locais, que seguiam em uma postura muito mais cautelosa nos últimos dois meses e agora começaram a ampliar exposição aos ativos domésticos: compraram ações e aplicaram em juros de longo prazo.

No câmbio, o que se viu foi uma redução das posições compradas em dólar – ou seja, diminuição do hedge montado para atravessar o período de instabilidade pré-eleitoral. Isso significa que o potencial de valorização do real ainda é elevado, principalmente no caso de vitória de Bolsonaro, o que também tenderia a impulsionar a bolsa. “É difícil definir preço justo de ativos, mas é certo que ainda há muito prêmio de risco para ser retirado do mercado”, diz gestor de um grande fundo.

Na pesquisa Ibope de segunda, Bolsonaro passou a ter dez pontos de vantagem no primeiro turno – cresceu para 31%, ante 21% do petista. No segundo turno, ambos ficaram numericamente empatados, com 42%. O que mais entusiasmou o investidor foi a disparada do índice de rejeição de Haddad, de 27% para 38%. Foi esse dado que trouxe à pauta a ideia de Bolsonaro vencer ainda no primeiro turno – hipótese ainda pouco provável, segundo especialistas. “Não achamos que o Ibope seja ponto fora da curva (…), ela denota o início de uma tendência”, diz o analista sênior para Brasil na Eurasia Silvio Cascione. “Mas esperamos que o segundo turno ocorrerá.”

O Datafolha confirmou o cenário para o primeiro turno (32% contra 21%) e apontou vitória numérica de Bolsonaro numa disputa direta contra Haddad (44% a 42%). De todo modo, o que Ibope e Datafolha demonstram é que – diferentemente do que se via nas sondagens conhecidas até a semana passada – Bolsonaro volta a ser o favorito, com maior probabilidade de vitória. E, dada a aversão dos investidores ao programa econômico defendido pelo PT, foi razão para voltar a assumir posições.

Segundo gestores, os fundos locais, mais sensíveis às questões políticas, ajustaram suas apostas. Nas últimas semanas, haviam zerado posições mais arriscadas e a pesquisa Ibope os encorajou a retomar apostas. Mas o movimento do estrangeiro também continua ajudando a explicar a alta da bolsa, já que, desde meados de setembro, a força compradora desses investidores alçou o índice a novos níveis.

Segundo um analista de um banco de investimento, a alta expressiva das estatais é claramente um movimento do mercado de ver maiores chances do Bolsonaro vencer a eleição. Isso significa que o discurso pró-privatização da sua chapa ganha mais destaque. “Não sei se ele vai ou não fazer, mas o discurso agrada, então há reação.”

Rodrigo Borges, gestor de renda fixa da Franklin Templeton, diz que o Ibope surpreendeu positivamente o mercado em um momento em que os estrangeiros já começavam a recompor posições em Brasil, por isso tamanho movimento. Esse fluxo de capital “gringo” – positivo em R$ 3,28 bilhões para a bolsa em setembro – ajuda a explicar o fato de que, nos últimos dias, a taxa de câmbio não passou de R$ 4,20, mesmo quando as pesquisas mostravam avanço de Haddad. E contribuiu até para uma leitura mais moderada do petista. “Começamos a ver alguns bancos estrangeiros com uma visão para o Brasil parecida com a do México, com a expectativa de que Haddad caminhasse para o centro e assim teria melhora do preço dos ativos. Alguns bancos começaram a recomendar Brasil, inclusive.”

Por mais que o contexto seja mai favorável a apostas agora, o preço dos ativos brasileiros foi determinante para a magnitude do alívio no mercado. “Considerando que as reformas podem dar certo no próximo governo, os ativos brasileiros estão muito baratos. Por isso, o mercado se dá o benefício da dúvida para fazer uma rodada de apostas”, aponta Vitor Carvalho, sócio e gestor da LAIC-HFM.

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