Quadrilha de roubo de cargas investiu R$ 4,5 milhões em armas para tentativa de nova invasão à Rocinha

Fonte: extra.globo.com

Ao todo, 37 mandados de prisão foram expedidos nessa operaçãoUniformes policiais, bloqueadores de GPS e batedores para evitar abordagens policiais. A Polícia Civil e o Ministério Público do Rio (MPRJ) desmantelaram, nesta quarta-feira, uma quadrilha especializada em roubo de cargas responsável por estruturar um esquema que, nos últimos meses, investiu R$ 4,5 milhões na compra de 38 fuzis, 68 pistolas, cerca de 38 mil munições e 530 carregadores. Parte desse armamento seria destinada a uma tentativa de invasão à Rocinha, na Zona Sul, de acorco com a polícia. No entanto, apenas três armas foram apreendidas na operação.

— Identificamos essa intenção em áudios interceptados entre o traficante Bruxo e comparsas, onde falam claramente em investir na comunidade da Zona Sul, hoje comandada por uma facção rival a deles, numa tentativa de retomar o território. A descoberta de toda a contabilidade desse material bélico refere-se às comunidades da Vila Kennedy e da Vila Aliança, que entrariam no confronto pela Rocinha — afirmou o titular da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC), Delmir Gouvea, referindo-se a Fernando Lemos Gonçalves, traficante preso em novembro do ano passado.

De acordo com as investigações, os prejuízos causados pelos roubos desse grupo chegam a R$ 600 milhões. O delegado destacou, ainda, a participação de quatro funcionários de empresas responsáveis pela entrega das cargas nos crimes: três vigilantes e um motorista estão entre os buscados pela polícia, sendo três presos e um ainda foragido. Ao todo, 37 mandados de prisão foram expedidos na operação.

— A presença desses funcionários era um diferencial. Eles forneciam a rota dos caminhões, o tipo de carga e o melhor momento para os criminosos abordarem os veículos, facilitando toda a ação. As empresas também foram vítimas, já que não tinha conhecimento da participação. E a investigação não terminou aqui. Nós temos indícios da participação de outros funcionários de outras empresas — disse Gouvea.

A quadrilha investiu um total de R$ 4,5 milhões na compra de 38 fuzis, 68 pistolas, cerca de 38 mil munições e 500 carregadores
A quadrilha investiu um total de R$ 4,5 milhões na compra de 38 fuzis, 68 pistolas, cerca de 38 mil munições e 500 carregadores Foto: Fabiano Rocha / O Globo

Segundo a denúncia, os roubos de carga servem para financiar o tráfico de drogas. Com armas de guerra, como fuzis e granadas, por exemplo, eles se beneficiam do controle territorial de comunidades para fazer o transbordo das mercadorias e a revenda dos produtos em áreas carentes do Rio. Os bandidos ambém recebiam apoio bélico e financeiro de facções criminosas do Rio e São Paulo. O promotor de justiça Alexandre Themístocles apontou uma ligação entre diferentes tipos de crime.

— No Rio, todas as facções praticam roubo de cargas. Hoje, não se pode dissociar quadrilhas de roubos de cargas com grupos armados que praticam o tráfico nas favelas. Para o transbordo das mercadorias, eles precisam de uma área controlada pelo tráfico. O roubo de carga, comandado pelo tráfico, é a mais importante fonte de financiamento para o fortalecimento dos grupos criminosos — explicou Themístocles.

O grupo consolidou-se na Cidade Alta, na Zona Norte, mas atuava em associação com traficantes de outras áreas, entre elas as comunidades do Muquiço e da Quitanda, em Marechal Hermes e no Complexo da Pedreira, respectivamente, ambos na Zona Norte; a Vila Aliança, em Bangu, na Zona Oeste; o Complexo da Maré, na Zona Norte; e ainda em áreas de São Gonçalo e até da Região dos Lagos.

Entre os 37 denunciados há chefes do tráfico, assaltantes, seguranças privados, motoristas e batedores. A ação é resultado de dez meses de investigação da DRFC e a 6ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal do MP. Os acusados responderão na Justiça pelos crimes de associação para o tráfico e também financiamento do tráfico por meio dos roubos de carga, pena que varia entre oito e 20 anos de prisão.

REDUÇÃO DE 20% EM AGOSTO

De acordo com os dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), agosto deste ano registrou 673 roubos de carga no Estado do Rio, o que representa uma redução de 20% em relação ao mesmo mês do ano passado, com 843 casos contabilizados. Somados os roubos de carga nos oito primeiros meses de cada ano, verifica-se uma redução de aproximadamente 7% comparando os anos de 2017 e de 2018. Nesse caso, a queda também pode ser atribuída à greve de caminhoneiros (maio e junho).

Em entrevista recente ao GLOBO, Luiz Marinho, diretor da Associação de Atacadistas Distribuidores do Estado do Rio (Aderj), calculou que as 200 empresas associadas à entidade tiveram um prejuízo em torno de R$ 15 milhões com roubos no ano passado. Além disso, casos de roubo ou furto de carga e de vandalismo custaram às industrias dos quatro estados da Região Sudeste R$ 57,6 bilhões em 2017, quando quase uma em cada três empresas da região (29%) sofreu esse tipo de violência.

Coletiva na Cidade da Policia com o promotor Alexandre Themístocles e o delegado Delmir Gouvêa
Coletiva na Cidade da Policia com o promotor Alexandre Themístocles e o delegado Delmir Gouvêa Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

O titular da DRFC destacou o prejuízo para o Estado a partir dos roubos de carga:

— Quando se fala nesse crime, município, estado e União saem perdendo. O produto roubado é colocado de maneira ilegal no mercado, e as pessoas que compram essa mercadoria suprem a sua necessidade, deixando de ir no comércio legal, onde há impostos e tributos arrecadados pelo Estado. Isso leva a um descontrole — assinala.

INVESTIGAÇÕES TERÃO PROSSEGUIMENTO

Segundo o delegado Gouvea, o inquérito agora será desmembrado em novas ações.

— A investigação começou com o roubo de cargas. Mas hoje, com a confirmação da compra dessas armas, vamos iniciar uma nova apuração para descobrir quem as fornece e de onde vêm as armas. Ainda não sabemos onde elas estão — disse ele.

Entre os mandados de prisão expedidos nesta quarta-feira, está o de um traficante acusado de comandar assaltos a comércios e a articular uma ação violenta, em 18 de janeiro deste ano, a um depósito de bebidas em Realengo, na Zona Oeste. O crime terminou com a morte do proprietário, Paulo Roberto da Cunha Pereira, de 53 anos, e do assaltante Alan Quintino Hermogenes, vulgo Bigode. Os momentos de pânico vividos no depósito naquele dia foram captados por gravações telefônicas.

Evandro Avelino da Silva é acusado de ser o responsável pela compra do armamento e determinar a morte de policiais militares nos arredores da Avenida Brasil, além de ser o suspeito de matar o comerciante durante o assalto ao depósito de bebidas.

Policiais prederam 25 suspeitos na manhã desta quarta-feira
Policiais prederam 25 suspeitos na manhã desta quarta-feira Foto: Fabiano Rocha / O Globo

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s