Como se resolveram os 5 maiores episódios de hiperinflação da história

Fonte: BBC


pilha de dinheiro Direito de imagem Reuters
Image caption Pilhas de bolívares venezuelanos equivaliam a 1,45 dólares em 16 de agosto. Na foto, esse tanto de dinheiro é o necessário para comprar 1 kg de carne

A Venezuela vive um dos piores episódios de hiperinflação registrados no mundo desde a Segunda Guerra Mundial.

Até agosto, a alta acumulada dos preços nos últimos 12 meses alcançou 65.000%, segundo Steve Hanke, professor de Economia Aplicada da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore (EUA), um dos maiores especialistas em hiperinflação.

Kanke é um dos autores da “Tabela de Hiperinflação Mundial”, que passou a incluir a Venezuela em novembro de 2016. Na época, os preços subiam a um ritmo mensal de 219% e se duplicavam a cada 18 dias.

A situação, no entanto, piorou e, num contexto de grave escassez de comida e medicamentos, os cidadãos se viram forçados a usar grandes maços de dinheiro para pagar por simples bens de necessidade básica.

A introdução de uma nova moeda, o bolívar soberano, que cortou cinco zeros da moeda anterior, o bolívar forte, não solucionou o problema da hiperinflação.

Brasil

Hanke disse à BBC que, incluindo a Venezuela, houve 58 episódios de hiperinflação no mundo, entre eles os 82,4% ao mês de inflação que o Brasil registrou entre dezembro de 1989 e março de 1990, quando as moedas eram o cruzeiro e o cruzado e os preços dobravam a cada 35 dias.

No caso brasileiro, foram pelo menos 15 anos de inflação acima de dois dígitos ao mês. Nesse período, que tomou toda a década de 1980, comerciantes remarcavam preços diariamente, produtos sumiam das prateleiras e consumidores corriam às compras assim que recebiam seus salários, para evitar a mudança súbita dos valores. Preços e remunerações eram reajustados assim que a inflação do mês anterior era divulgada, o que acabava repassando a inflação de um mês para o seguinte. A consequência desse acúmulo eram números exorbitantes: 6 milhões de cruzeiros por um aparelho de som ou 43 mil por um pote de margarina.

A crise hiperinflacionária era intensificada pela desvalorização da moeda para manter o país competitivo no mercado global e pelo aumento do dinheiro em circulação para financiar a dívida externa.

A situação só melhorou em 1994, com o lançamento do Plano Real, que conduziu o país de volta à estabilidade. O plano levou ao fim da correção monetária e do congelamento de preços.

Mas houve períodos ainda bem mais graves que o brasileiro.

Saiba quais foram os 5 piores, antes da crise na Venezuela, e como os governos conseguiram contornar o problema:

notas húngaras Direito de imagem Getty Images
Image caption 100 milhões de pengős húngaros tinham um valor ínfimo em 1946.

1. Hungria, 1946

Taxa de inflação diária: 207%

Os preços duplicavam a cada 15 horas

Em julho de 1946, a inflação na Hungria alcançou um nível impactante: 41.900.000.000.000.000%. É o pior caso de hiperinflação já registrado.

O valor do dinheiro que os húngaros tinham na carteira a cada manhã se reduzia à metade até no fim do dia. A nota mais alta era de 100 trilhões de pengos húngaros.

A Segunda Guerra Mundial havia acabado com 40% da riqueza da Hungria, e 80% da sua capital, Budapeste, fora destruída. As vias férreas tinham sido bombardeadas e o governo teve que pagar uma indenização milionária depois do conflito.

Em 1º de agosto de 1946, o governo adotou um programa de estabilização radical que incluiu uma reforma tributária drástica, a recuperação das reservas de ouro que haviam sido transferidas para o exterior e a introdução de uma nova moeda, o florim húngaro, respaldada pelas reservas de ouro e divisas estrangeiras.

2. Zimbábue, 2008

Taxa de inflação: 98%

Os preços duplicavam a cada 25 horas

Moeda local do Zimbábue
Image caption A solução do Zimbábue para a inflação foi dolarizar a economia

Após introduzir uma reforma agrária no final da década de 1990 que incluía a expropriação de terras de fazendeiros brancos, o Zimbábue sofreu um forte declínio na produção agrícola.

A situação piorou devido à custosa intervenção na Guerra do Congo, em 1998, e aos efeitos das sanções que os Estados Unidos e a União Europeia impuseram em 2002 ao país, governado na época por Robert Mugabe.

Nos anos que se seguiram, os preços começaram a subir. Em novembro de 2008, a inflação havia alcançado uma taxa mensal de 79.000.000.000%.

As lojas aumentavam os preços dos produtos várias vezes ao longo do dia. A crise econômica se traduziu em cortes de água e energia, filas nos bancos e postos de gasolina e grave escassez de comida nos supermercados.

Muitos cruzavam a fronteira para Botsuana para comprar bens de primeira necessidade e dólar americano. Em 2009, o Banco da Reserva do Zimbábue deixou de usar a moeda nacional e adotou as moedas dos EUA e da África do Sul.

3. República Federativa da Iugoslávia, 1994

Taxa de inflação diária: 65%

Os preços duplicavam a cada 34 horas

Mulheres bósnias Direito de imagem AFP
Image caption Na Iugoslávia, produtores fizeram greve em protesto às tentativas do governo de controlar a alta dos preços

A Iugoslávia era um país formado após a Primeira Guerra Mundial por o que hoje são Bósnia e Herzegovina, Croácia, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Eslovênia. A crise econômica e política da década de 1980 provocou guerras que acabaram dividindo o país nessas nações. Em 1992, só Sérvia e Montenegro permaneceram unidas na República Federativa da Iugoslávia.

Diante dos gastos com conflitos internos e a queda no consumo, o governo começou a imprimir dinheiro. O gasto público descontrolado, a ineficiência, a corrupção e as sanções das Nações Unidas em 1992 e 1993 aprofundaram o problema.

No início de 1994, os preços subiam 313.000.000% ao mês. As pessoas se apressavam a gastar o dinheiro assim que recebiam seus salários. Muitos na Sérvia compravam provimentos no país vizinho, a Hungria. Insatisfeitos com as várias tentativas de controle de preços, os agricultores paralisaram a produção.

O comércio no mercado negro de marcos alemães e dólares americanos cresceu vertiginosamente.

Para deter o descontentamento social e negociar o fim das sanções impostas pelas Nações Unidas, o líder sérvio Slobodan Milosevic aceitou finalmente adotar uma nova moeda – o novo dinar – atrelada às reservas de ouro.

4. Alemanha, 1923

Taxa de inflação diária: 21%

Os preços duplicavam a cada 3 dias

Meninos alemães usado notas de marco para construir uma torre em 1923 Direito de imagem Getty Images
Image caption Meninos alemães usado notas de marco para construir uma torre em 1923

A derrota na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) deixou a Alemanha com grandes dívidas e custos para reconstruir o país. O governo começou a imprimir grandes quantias da moeda local, o marco, para comprar moedas mais fortes e pagar as dívidas.

À medida que se imprimiam novos marcos, eles perdiam mais valor. Mas a crise piorou mesmo quando a Alemanha não pagou o que devia em 1923, o que provocou a ocupação do vale de Ruhr – o coração industrial alemão – por tropas francesas e belgas, para exigir o pagamento da dívida em moedas fortes.

Isso provocou greves e interrupções na produção. Em outubro de 1923, a inflação havia disparado a 29.500% ao mês, com preços duplicando a cada 3 ou 4 dias. Uma fatia de pão, que custava 250 marcos em janeiro daquele ano, passou a custar 200 bilhões de marcos em novembro.

As pessoas recolhiam os salários em malas. Anedotas sobre a crise ilustram o drama: uma pessoa deixou sua mala desatendida e quando voltou percebeu que haviam roubado a mala, mas não o dinheiro; um padre viajou a Berlim para comprar um par de sapatos e quando chegou lá só conseguiu arcar com uma xícara de café e o bilhete de ônibus para voltar para casa.

No final de 1923, o governo introduziu uma nova moeda, o “marco seguro” (retenmark), atrelado a terras agrícolas. Os preços se estabilizaram e posteriormente os credores da Alemanha concordaram em renegociar as dívidas de guerra.

5. Grécia, 1944

Taxa de inflação diária: 18%

Os preços duplicavam a cada 4 dias

Partenon, em Atenas
Image caption A Grécia levou mais tempo que a Alemanha e a Hungria para controlar a hiperinflação

A economia grega sofreu muito durante a ocupação por parte de países do Eixo, na Segunda Guerra Mundial. Os ocupantes levaram matérias-primas, gado e alimentos, e o governo foi obrigado a assumir os custos da ocupação.

Uma queda na produção agrícola provocou uma escassez grave de alimentos nas principais cidades e um período conhecido como A Grande Fome. A falta de alimentos e mercadorias contribuíram para o aumento da inflação, que alcançou um pico de 13.800% em novembro de 1944.

Ainda que os aumentos de preços não tenham sido tão fortes quanto na Hungria ou na Alemanha do pós-guerra, os esforços de estabilização da Grécia demoraram mais para surtir efeito.

Após a liberação do país, em outubro de 1944, o governo fez três tentativas de controle da inflação ao longo de 18 meses até conseguir maior estabilidade por meio de uma reforma fiscal, tomada de empréstimos e a introdução de uma nova moeda.

 

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