Após 30 anos, xilogravuras da Declaração dos Direitos Humanos são expostas no Brasil

Fonte: ONU

A ONU Brasil realizará em agosto uma exposição no Rio de Janeiro com obras do artista paulistano Otávio Roth, que em 1978 criou e imprimiu xilogravuras que ilustram os trinta artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

É a primeira vez em mais de 30 anos que as xilogravuras — expostas permanentemente nas sedes da Organização em Nova Iorque, Viena e Genebra — têm exibição no país.

Em entrevista ao Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio), a filha do artista, Isabel Roth, falou sobre o legado de Otávio e suas contribuições para a divulgação da Declaração, que completa 70 anos em 2018, e do trabalho das Nações Unidas globalmente. Leia a reportagem completa.

A ONU Brasil realizará em agosto uma exposição no Rio de Janeiro com obras do artista paulistano Otávio Roth, que em 1978 criou e imprimiu xilogravuras que ilustram os trinta artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

É a primeira vez em mais de 30 anos que as xilogravuras — expostas permanentemente nas sedes da Organização em Nova Iorque, Viena e Genebra — têm exibição no país.

Em entrevista ao Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio), a filha e curadora do artista, Isabel Roth, falou sobre o legado das obras de Otávio e sua contribuição para a divulgação da Declaração, que completa 70 anos em 2018, e do trabalho das Nações Unidas globalmente.

“O Otávio foi o primeiro artista vivo a expor na ONU, porque foi o primeiro artista a ilustrar o conteúdo da Declaração Universal dos Direitos Humanos”, disse Isabel, citando o documento histórico adotado pelos países em 10 de dezembro de 1948, alguns anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

As xilogravuras demoraram dois anos para ficar prontas, sendo exibidas pela primeira vez em 1978. As obras foram, ao longo do tempo, gravadas em várias línguas: norueguês, inglês, francês, japonês, espanhol, dinamarquês e português.

Segundo Isabel, Otávio Roth acreditava que o conteúdo da Declaração era muito importante para ficar restrito aos círculos de profissionais das Relações Internacionais e do Direito, sendo necessária sua disseminação de forma mais didática para as populações do mundo todo. Ele manifestou essa opinião em entrevistas concedidas na época em que lançou o trabalho.

“Em várias ocasiões, tive a oportunidade de ter em mãos o texto convencional da Declaração, que é um papelzinho mixuruca, ilegível. Percebi que, daquela forma, o texto jamais seria divulgado, daí a ideia de transformá-lo num trabalho gráfico de maior impacto”, disse Otávio em entrevista à Folha de S.Paulo em 1981, ano da inauguração da exposição em Nova Iorque.

Para Isabel, um dos eixos que movem as obras de Otávio é o entendimento de que a informação precisa ser compartilhada, princípio que, segundo ela, estava presente tanto em seu trabalho artístico como em suas atividades de pesquisador, curador e professor.

“Ele tinha uma paixão por estudar e pesquisar uma série de temas, e nunca foi uma pessoa que quisesse guardar esse conhecimento para si, sempre quis canalizar e democratizar esse acesso”, declarou Isabel.

Morto em 1993, aos 41 anos, Otávio Roth foi gravador, designer gráfico, ilustrador e professor. Ele é reconhecido mundialmente por seu trabalho com papel artesanal e eventos de arte participativa. Em 1971, viajou para Israel, onde iniciou seu interesse pela fotografia. No ano seguinte, em São Paulo, entrou no curso de Publicidade e, em 1974,  foi estudar desenho gráfico em Londres. Na capital britânica, por influência do artista Paul Pietch, começou a se interessar pela gravura, principalmente a xilogravura, e por temas sociais e políticos.

Atuou como designer, ilustrador e gravador em Oslo, no Noruega, em 1977. Voltou para o país pouco depois e, ao longo dos anos 1980, recebeu vários prêmios de literatura infanto-juvenil, como ilustrador e escritor, e foi parceiro em diversas publicações da escritora Ruth Rocha. Na mesma década, inaugurou a Handmade, primeira fábrica de papel artesanal do país.

Para Isabel, as obras de Otávio valorizam o sentido de coletividade, enquanto ao mesmo tempo comunicam temas duros de maneira leve. “Era um artista muito brasileiro nesse sentido, que comunica alegremente, com cores. Não precisa obrigatoriamente falar de temas pesados de maneira traumática”, declarou. “Nesse sentido, a obra dele comunica muito para adultos, mas também para crianças”.

A ideia de ilustrar cada um dos artigos da Declaração partiu do próprio artista, que produziu as obras na Noruega. Em 1980, ele a expôs na galeria nova-iorquina Automation House, onde foi vista por um assessor do então secretário-geral da ONU, Kurt Waldheim.

O assessor ficou impressionado com o trabalho e convidou o artista brasileiro a expor a série de xilogravuras na sede da Organização, em Nova Iorque. Em 1981, a exposição foi inaugurada para lembrar os 33 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. A última vez que a série de xilogravuras foi exposta no Brasil foi em 1981.

“A grande contribuição que o Otávio trouxe para as Nações Unidas com a série da Declaração foi a de apresentar uma versão que fosse leve, agradável, fácil de comunicar e que dialoga com todos”, disse.

“Essas ilustrações são singelas, mas não devemos confundir essa simplicidade com superficialidade no tratamento do conceito”, disse Isabel. “O resultado final é muito simples, mas o que está por trás é um processo complexo de simplificação, sem que se percam os valores e o significado real daquela mensagem”, completou.

Segundo Isabel, Otávio não teve problemas com autoridades brasileiras durante a ditadura militar, apesar de sua defesa dos direitos humanos em meio a um regime violador desses direitos. “Toda a obra dele carrega valores e símbolos compatíveis com uma visão democrática, mas me parece que isso era muito sutil para ser percebido ou questionado pelas autoridades (da época)”, declarou.

Outros trabalhos de Otávio Roth com as Nações Unidas envolveram a elaboração de um selo comemorativo, em 1982, e uma atividade com crianças da Escola da ONU, em Nova Iorque, em 1990. Nessa ocasião, surgiu a ideia de uma nova instalação participativa sob o título “Á Árvore – Instalação Itinerante”, na qual crianças do mundo todo fizeram intervenções livres sobre folhas autoadesivas, coladas pelo artista em troncos desenhados em nanquim sobre acetato.

O objetivo era que o painel tivesse a dimensão da fachada do prédio-sede da ONU, mas o projeto ficou inacabado em virtude da morte prematura do artista. Mesmo assim, a instalação recolheu mais de 60 mil “folhinhas”.

“Esse entendimento de que a individualidade deve ser preservada e tem seu valor, mas que a contribuição de fato está no coletivo, é muito forte e comunica muito sobre o Otávio. É uma obra que sintetiza a visão que o Otávio tinha para a arte”, explicou Isabel.

Isabel afirma que decidiu se tornar curadora das obras do pai porque estas permanecem relevantes, décadas depois. “Meu pai faleceu quando eu tinha 3 anos, então, tenho poucas lembranças dele. (…) Mas a obra dele sempre esteve muito presente na minha casa. A lembrança dele sempre esteve presente na minha vida”.

“Me fascina a consistência dos valores que ele carrega nas obras. Como filha, eu sei que na vida pessoal ele carregava os mesmos valores. Me fascina ele ser uma pessoa tão coesa”, disse, lembrando que o pai acreditava no poder da arte como fator de transformação social.

“Esse é o lugar da arte, e os esforços que os profissionais da área devem ter, de pensar e propor os eventos culturais, os processos como oportunidade para as pessoas se sensibilizarem e se motivarem a dar o melhor delas”, concluiu.

A exposição ficará em cartaz até 9 de setembro.

Serviço

Período da exposição para o público: 08/08 a 09/09
Visitação: terça a domingo, das 12h às 19h
Classificação: Livre
Endereço: Centro Cultural Correios – Rua Visconde de Itaboraí, 20 – Centro, Rio de Janeiro


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