‘Voltamos a sentir medo’, diz moradora de comunidade considerada ‘modelo’ para a intervenção na segurança do RJ | Rio de Janeiro

Fonte: G1

Moradores da Vila Kennedy relatam volta de barricadas e até proibição para comunicação de ferimentos por tiros. De fevereiro a julho de 2018, foram registrados quase quatro mil tiroteios no estado.
Mulheres atravessam uma rua observando a ação de militares na remoção de bloqueios erguidos por traficantes na Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio de Janeiro (Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo)

Mulheres atravessam uma rua observando a ação de militares na remoção de bloqueios erguidos por traficantes na Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio de Janeiro (Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo)

 

Passados seis meses desde que foi decretada intervenção federal na segurança no Rio, completados nesta quinta-feira (16), moradores da Vila Kennedy, comunidade da Zona Oeste considerada modelo de atuação das Forças Armadas, relatam que, com a saída das tropas, só restou o medo. Segundo pessoas ouvidas pelo G1, o domínio de traficantes está de volta, e com novas restrições.

Todos os moradores que conversaram com a equipe de reportagem, o fizeram sob a condição de permanecerem como anônimos. Acuados e desesperançosos, grande parte deles está reclusa em casa, com receio de sair à rua.

“Voltamos a sentir medo de ir para a escola, de deixar um filho na rua”, afirmou um deles.

Uma moradora garante que a situação na favela é mais complicada quando escurece. Segundo ela, embora policiais militares façam rondas no período da noite, o resultado prático das patrulhas é “quase nulo”.

“Durante a noite é uma feira. Tem venda de drogas, gente andando com armas e as pessoas com medo de andar na rua. Tudo voltou ao que era antes”, lamentou.

A moradora reconhece que os policiais que circulam pela área depois que o sol se põe, a princípio, parecem se esforçar no combate à criminalidade. No entanto, ela ressalta que até as barricadas que foram retiradas pelas Forças Armadas já estão de volta às vias da Vila Kennedy.

“Eles também colocaram um quebra-mola alto e com vergalhão para cima. Assim, se o caveirão [veículo blindado] vier, fura o pneu”, explicou.

Tanque do Exército derruba barreiras colocadas por traficantes em rua da Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. (Foto: Jose Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo)

Socorro de baleados é proibido

Passada a ocupação dos militares, traficantes decidiram que, oficialmente, as frequentes trocas de tiros na comunidade não poderiam mais deixar feridos. Quem vive na Vila Kennedy explica que os criminosos evitam que comunicações sobre baleados cheguem aos órgãos oficiais de saúde.

“Eles não querem que as Forças Armadas voltem. Rolou, inclusive, um boato de que se alguém ficasse ferido a bala, não poderia ir para o [Hospital] Albert Schweitzer, para não aumentar a estatística e correr o risco dos militares voltarem”, destacou outro.

De início, a ação das Forças Armadas chegou a ser questionada por suspeita de arbitrariedade de militares. Numa tenda de campanha montada na favela, moradores foram fotografados e tiveram os antecedentes criminais checados.

De outro lado, também houve ações de aproximação com a comunidade como um mutirão de serviços públicos e distribuição de flores no Dia Internacional da Mulher.

Tanque do Exército derruba barreiras colocadas por traficantes em rua da Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. (Foto: Jose Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo)

Homens do Exército distribuem rosas para moradoras da Vila Kennedy (Foto: Reprodução / TV Globo)

 

A livre movimentação de criminosos durante a noite já preocupava moradores. Na época, o questionamento feito era por quê militares só patrulhavam a favela durante o dia . O problema veio à tona depois que homens encapuzados fizeram um arrastão dentro de uma igreja católica, à noite, e roubaram cerca de 15 pessoas que participavam de um mutirão de confissões.

Segundo o laboratório de dados Fogo Cruzado, de fevereiro a julho de 2018 foram registrados quase quatro mil tiroteios no estado. O número é 31,26% maior que o mesmo período de 2017.

De acordo com o Laboratório de Dados Fogo Cruzado, o número de tiroteios aumentou este ano (Foto: Cláudia Peixoto/ Editoria de Arte G1)

Já o Instituto de Segurança Pública (ISP) registrou que dados de homicídio doloso, homicídio decorrente de intervenção policial, morte de policiais militares, roubo e roubo de cargas apresentaram variações significativas em relação ao ano passado.

Somando os registros de cada um desses crime,s em seis meses, em comparação com o mesmo período de 2017, houve um grande salto do número de homicídios decorrentes de intervenção policial, que passou de 448 para 783.

Também houve um aumento do número de casos de homicídios dolosos, que passaram de 2.606 para 2.626, e uma significativa elevação do número de roubos em geral, que passaram de 118.351 para 119.064.

Já o número de PMs mortos no período reduziu de 16 para 14. Assim como os roubos de carga que passaram de 5.395 de fevereiro a julho de 2017 para 4.790 no mesmo período com a intervenção federal.

Em fevereiro de 2018, mês de início da intervenção, os cinco principais indicadores apontavam um aumento de número de ocorrências. Com destaque para o número de roubos, que no ano passado saltou de 9.714 casos para 19.684.

Na comparação entre os meses de março do ano passado com março deste ano, verifica-se o aumento do número de homicídios (de 498 para 508), de mortes de PMs (de 1 para 4), de roubo de cargas (de 718 para 918) e de roubos em geral (de 19.493 para 21.040). Houve queda somente no número de homicídios decorrentes de intervenção policial (de 123 para 109).

Em abril de 2018, foram registradas quedas significativas nos números de ocorrências de morte de policiais militares – que em abril do ano passado foram sete, contra uma, este ano – de roubos de carga e de roubos em geral. Mas os casos de homicídios continuaram aumentando.

Em maio deste ano, os números de roubos de carga foram menores que do ano passado, assim como o de roubos em geral e homicídios dolosos, embora ainda com bastante registros. Morreram mais policiais militares (3 contra 1, em maio de 2017) e houve mais casos de morte em ações policiais, que passaram de 97 casos no ano passado para 142, em maio de 2018.

Os casos de roubo em geral também foram menores em junho deste ano (19.501) que no mesmo mês em 2017 (21.165). Também caíram os números de homicídio doloso e de roubo de cargas. Mas houve aumento dos casos de homicídios em intervenções policiais e o número de mortes de policiais se manteve estável, com um caso registrado tanto em 2017, quanto este ano.

Em julho deste ano, pelo terceiro mês consecutivo houve redução do número de roubos em geral e também do roubo de cargas, em relação ao mesmo período de 2017. Também morreram menos policiais militares. Mas os homicídios aumentaram neste sexto mês da intervenção federal na segurança do estado.

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