A estratégia de Bolsonaro

Fonte: G1

Por que, se o horário eleitoral é tão decisivo, ele abriu mão do tempo de TV na escolha do vice?
Jair Bolsonaro, no encontro da CNI com pré-candidatos a presidente no início de julho (Foto: Sérgio Dutti/CNI)
Jair Bolsonaro, no encontro da CNI com pré-candidatos a presidente no início de julho (Foto: Sérgio Dutti/CNI)

Quem acompanha as eleições no Brasil sabe da importância do horário eleitoral gratuito. De acordo com um levantamento da consultoria Arko Advice, nas últimas sete eleições presidenciais, a corrida só encontrou seu rumo após o início da campanha televisiva.

É nesse momento que a maior parte dos eleitores costuma conhecer os candidatos e escolher seu voto para valer. A importância da TV cresce diante da atual incerteza eleitoral, maior que em todas as últimas eleições. Os votos indefinidos – aqueles que dizem votar em branco, nulo ou ninguém – chegam a 70% nas pesquisas espontâneas e passam de 40% mesmo nas estimuladas.

Ainda que a urna venha a revelar um voto de protesto maciço, com percentuais de nulos, brancos e abstenções quebrando recordes, não é razoável esperar que a TV tenha deixado de ter efeito sobre a decisão do eleitor, nem que tenha sido magicamente substituída pelas redes sociais. Para o eleitorado de baixa renda, com menor grau de instrução, ela ainda deverá ser decisiva.

É justamente nessas camadas que Bolsonaro tem maior dificuldade de penetração. Ele é hoje líder no cenário mais provável, sem a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas seus votos estão concentrados entre quem tem ensino médio ou superior e renda média e alta, como mostra a tabela abaixo, elaborada com base nos últimos resultados da pesquisa Datafolha (leia mais a respeito neste post).

Divisão do eleitorado por instrução (%)

Fundamental Médio Superior
Eleitorado total 51 38 11
Bolsonaro 35 49 16
Marina 54 38 8
Ciro 52 34 14
Alckmin 52 39 9
Indefinidos 56 36 8

Como entender, então, a decisão de Bolsonaro, ao abrir mão da aliança com o PR, que poderia ajudá-lo a conquistar o eleitorado em que ele tem maior dificuldade para crescer? Certamente seus partidários dirão que, ao escolher um general, Bolsonaro evita a associação com o sistema político apodrecido que sua campanha pretende combater, de que o PR de Valdemar talvez seja o símbolo mais eloquente.

Mas a resposta real está na estratégia de sua campanha, inspirada na que elegeu o republicano Donald Trump nos Estados Unidos. Para Bolsonaro, o importante não é dispor do tempo para expor ideias e projetos. Ele evita até confirmar presença nos debates televisivos, onde seria submetido a um confronto robusto e exposto às próprias contradições.

O importante para ele é tornar-se o tema inevitável da campanha. Como seu patamar de votos inibe o crescimento de outras candidaturas, deverá ser atacado por elas – em especial, pelo ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) e pelos ex-ministros Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede).

Assim como Lula quer transformar a campanha num plebiscito sobre sua prisão, o objetivo de Bolsonaro é torná-la uma espécie de referendo entre ele e o “sistema”, representado por todos os demais candidatos.

Quanto mais ele for alvo de ataques, mais força terá esse discurso. Pouco importa que a propaganda seja negativa. O princípio é: “Falem mal, mas falem de mim”. Foram os ataques a Trump, primeiro dos próprios republicanos, só depois dos democratas, que o levaram a vencer as primárias e a quebrar o favoritismo da rival, Hillary Clinton. Bolsonaro pretende repetir o roteiro.

Basta classificar nas redes sociais todo ataque como “fake news”, atribuir as informações que desagradem à “imprensa mentirosa” e contar com as legiões de fieis que repetirão religiosamente qualquer determinação do líder. Bolsonaro não precisa, para isso, ter horário eleitoral. Ele quer mesmo é usar o horário eleitoral dos outros.

Essa situação põe os demais adversários diante de um dilema similar ao enfrentado pelos rivais de Trump em 2016. Se deixarem de atacar suas declarações mais absurdas – quesito em que ambos, convenhamos, são pródigos –, serão tidos como omissos pelo eleitor que teme Bolsonaro. Se o atacarem, farão o jogo dele.

Manterão o nome Bolsonaro no centro da campanha, a ponto de levar o eleitor indefinido, aquele mesmo de baixo nível de renda e instrução, a perguntar se a chiadeira não é no fundo injusta e se, no fundo, todos não têm é medo de que ele chegue lá para mudar “tudo isso que está aí”. Exatamente como aconteceu no caso de Lula, que cresceu nas pesquisas depois de ser alvo de investigações policiais, julgado, condenado e preso.

Quanto mais um candidato puder se fazer de vítima de ataques que classificará como “injustos” ou “perseguição”, mais sua popularidade tenderá a crescer. Foi a estratégia de Lula para manter-se vivo eleitoralmente depois da Operação Lava Jato. Foi a estratégia de Trump para dominar o Partido Republicano. Será também a de Bolsonaro.

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