O monstro da burocracia

Fonte: ÉPOCA

Documentos; Arquivos; Burocracia (Foto: Shutterstock)
 (Foto: Shutterstock)

Eu ando, viajo, me movimento, tenho relações com o público e o privado, com as grandes empresas, com startups e com ideias que são apenas sonhos. Palestrei por megalópoles e por cidades menores, falei sobre diversidade, inclusão, organizações exponenciais, tecnologias emergentes, o futuro do trabalho, sobre as coisas da internet e sobre a internet das coisas. Por tudo que passei, algo de fundo, que se confunde com a paisagem, que se esconde em entrelinhas, que se disfarça em frases e slogans de efeito, começou, subitamente, a me preocupar: o monstro da burocracia.

Uma vez furada a barreira do discurso — a bolha do release cheio de firulas de marketing — é impressionante como a burocracia, seja ela de processos, de mentalidade, de proteção pessoal, de medo, ou de uma série de motivos, ainda persiste como um obstáculo para processos de inovação. A burocracia impede até mesmo os processos de abordagens simples, como a de querer ajudar recortes sociais desprovidos de recursos. Nesse último caso você vai lidar com editais, portarias, regulamentos, normas, diários disso e daquilo e uma infinidade de mumunhas burocráticas que apenas servem como desestímulo para qualquer iniciativa que envolva o poder público. Quer entender? Tenta entrar em uma escola pública para dar uma palestra. Tenta dar um curso numa penitenciária. Tudo isso de graça, ok!? É muito cansativo, burocrático, para não dizer impossível.

A burocracia é, antes de tudo, o resultado da desconfiança que se instala em todos os níveis de relacionamento e se ramifica em uma cadeia de interesses onde ganha mais quem cria mais obstáculos, num país tipicamente cartorário. Não bastasse a burocracia pública que gera filhotes na iniciativa privada, há também uma letargia crônica das empresas em se mover para projetos de alcance social que, quando muito, exigem apenas vontade e desejo genuínos de participar de um movimento significativo de transformação — afinal, os investimentos financeiros para iniciativas desse tipo são irrisórios. Ninguém nem tenta. O nome científico disso é intolerância à incerteza. Na mínima brecha de poder dar errado, a gente para e só mantpem a inércia sem criar.

É certo que existem algumas iniciativas alentadoras, como a que o Facebook tem feito na Estação Hack, com movimentos de política liderados por jovens idealistas, mas ainda é pouco, insuficiente. Burocracia pública + letargia privada = Atraso. Essa é uma operação que o Brasil vai ter que desfazer. Se parece tão evidente, o que falta, então? Até quando vamos ser o patinho feio na copa do mundo da produtividade, da competitividade e do fomento à inovação? O “futuro” está batendo na nossa porta e vai ser difícil correr atrás do prejuízo.

* Camila Achutti é CTO e fundadora do Mastertech, professora do Insper e idealizadora do Mulheres na Computação

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